Caprichos e Relaxos é o livro que tirou Paulo Leminski da edição de amigo e o colocou numa editora de circulação nacional. Saiu em 1983 pela Brasiliense, por iniciativa de Luiz Schwarcz, então editor da casa. Dentro estão poemas de plaquetes independentes, sobretudo Polonaises e Não Fosse Isso e Era Menos, Não Fosse Tanto e Era Quase, ambos de 1980, mais textos escritos depois. O título nomeia o programa: rigor e folga no mesmo verso.
O que o leitor encontra
Não é romance e não é biografia. É poesia curta, com haicai, piada, gíria, ditado revirado e algum poema visual herdado do contato com Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Parte desses poemas tinha aparecido antes na revista Invenção. A contracapa original da Brasiliense levava a saudação de Haroldo. Caetano Veloso, anos mais tarde, voltou a comentar o livro no aparato de Toda Poesia. A reedição da Companhia das Letras lembra que, para os padrões da poesia da época, o volume vendeu como poucos.
O público de Caprichos e Relaxos é quem quer o Leminski em dose de página, não o monólogo do Catatau. Serve a quem lê no ônibus, a quem estuda a geração mimeógrafo e a quem procura a ponte entre o concretismo erudito e a poesia que circulava em cópia barata nos anos 1970. O poema cabe na mão. A erudição, latim, haicai, trocadilho, fica por baixo da frase, não num prefácio.
Por que a edição de bolso ainda importa
Em 2016 a Companhia das Letras recolocou o livro avulso na coleção Poesia de Bolso, com 168 páginas, formato 12,5 por 18 centímetros e ISBN 978-85-359-2730-6. A edição inclui uma cronologia que não estava no volume de 1983. Os poemas também integram Toda Poesia, de 2013. Comprar este título separado faz sentido quando a pessoa quer só esse recorte, o da consagração em vida, e não a obra inteira. A capa comum à venda na Amazon é essa reedição, não a Brasiliense original, hoje peça de sebo.
O que este volume não substitui
Caprichos e Relaxos não traz o fotolivro Quarenta Clics em Curitiba, feito com Jack Pires em 1976, nem o ceticismo mais seco de Distraídos Venceremos, de 1987. Também não substitui as biografias de Bashô, Cruz e Sousa, Jesus e Trótski, reunidas depois em Vida. Ele é o centro da reputação poética de Leminski enquanto o autor ainda estava vivo e ainda dependia de redação publicitária para pagar a conta. Schwarcz, que publicou o livro na Brasiliense, voltaria décadas depois, já na Companhia das Letras, a reunir a poesia completa. Este volume é o começo dessa história editorial, não o arquivo inteiro.




