Sete nomes cabem numa milonga curta: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia. Vitor Ramil chamou isso de sete cidades e fez delas o eixo de Ramilonga: A estética do frio, disco de 1997. Quase trinta anos depois, ele ainda aponta esse álbum como marco zero. A edição à venda na Satolep Music não é o CD solto de estreia. É o pacote de 25 anos, caderno mais CD, lançado em 2022, com o disco remixado e remasterizado.
Quem procura o título quer ouvir a milonga sem bombacha de palco. O objeto de 25 anos entrega o repertório e um caderno de anotações em volta dele. Não é outro álbum. É a mesma obra, com o tempo de estrada explícito na capa, escrita à mão e carimbada com o nome do disco.
O que o disco de 1997 fez
Ramilonga é o quinto álbum de estúdio. Saiu pela Satolep Music em 1997, gravado e mixado em fevereiro e março daquele ano no Estúdio CIA dos Técnicos, no Rio de Janeiro. A duração fica em torno de 47 minutos. Onze faixas. A faixa-título passa de seis minutos. Milonga de sete cidades nomeia o método. Noite de São João parte de Fernando Pessoa. Gaudério parte de João da Cunha Vargas. Há ainda Indo ao pampa, Causo farrapo, Deixando o pago, No manantial, Memória dos bardos das ramadas e Último pedido.
Os créditos de estúdio mostram o cruzamento que o ouvido percebe. Nico Assumpção no baixo acústico. Roger Scarton no harmônio. André Gomes no sitar em Indo ao pampa. Alexandre Fonseca em tabla e percussão. O violão é do próprio Ramil. Instrumento de milonga e instrumento indiano dividem a mesma faixa sem virar exotismo de enfeite. A voz fica perto, sem o grito que o cancioneiro nativista usava como prova de terra.
Por que ele chama o disco de marco zero
Havia disco antes. Estrela, Estrela é de 1981. A paixão de V segundo ele próprio, de 1984, já era um laboratório. À beça, de 1995, ensaiou a estética do frio em tiragem curta. Em 2026, na conversa com o Brasil de Fato, Ramil separou essa primeira fase, que chamou de precoce, do momento em que achou uma linguagem para o imaginário regional fora do folclore tradicionalista e do nativismo. O nome dessa linguagem é o subtítulo do disco.
O Prêmio Açorianos de 1997 registrou Ramilonga na categoria disco de MPB/samba. O número não explica a escuta. Explica que, já na época, o álbum não foi arquivado como curiosidade regional. Entrou na disputa da canção brasileira. A edição de 25 anos, com show no Salão de Atos da PUCRS em outubro de 2022 e single prévio Milongamango, recolou três milongas e a voz de João da Cunha Vargas, gravada em fita cassete em 1978, declamando o poema Mango.
O que vem na edição de 25 anos
A loja oficial descreve o item como caderno mais CD. A capa é uma página de manuscrito, com o título em verde e o nome de Vitor Ramil em vermelho. Não é a arte do LP de 1997 reimpressa sem aviso. É a comemoração. Em 2024 o selo Noize ainda lançou uma edição em vinil, de tiragem limitada, que esgotou. O item estável para quem quer o repertório com o caderno é o pacote da Satolep Music.
- Obra original: 1997, Satolep Music, onze faixas
- Edição à venda: 25 anos, 2022, caderno e CD remasterizado
- Forma: milonga, com sitar, tabla, harmônio e violão
- Método nomeado no disco: as sete cidades da estética do frio
- Faixa que explica o método: Milonga de sete cidades
Para quem o disco serve agora
Serve para quem ouviu Deixando o pago solta numa playlist e quer o álbum inteiro, não o sucesso isolado. Serve para quem lê o ensaio de Genebra, de 2004, e precisa da música que veio antes do texto. Serve para quem compara a milonga de Ramil com a de Buenos Aires e Montevidéu e procura o ponto em que o português do Sul entra sem pedir licença ao centro do país.
Não substitui Tambong nem Campos Neutrais. Aqueles discos alargam o mapa. Este fixa o vocabulário. Sem ele, a estética do frio fica só frase. Com ele, vira duração, instrumento e letra.




