Em julho de 2021, isolado, Vitor Ramil reabriu Toda poesia, de Paulo Leminski, e tirou uma melodia de Sujeito indireto no violão. Nos dias seguintes vieram treze das quinze faixas de Mantra Concreto. O disco só saiu em 10 de outubro de 2024, pela Satolep Music, em digital e em CD. Entre o surto de composição e o lançamento houve arranjo, coprodução e a decisão de manter a milonga por baixo mesmo quando a percussão deixa de ser bateria.
A capa, com arte de Felipe Taborda, coloca o rosto dele de perfil, a boca aberta, e o nome de Leminski na faixa de baixo: músicas de um, poemas do outro. Não é disco sobre a biografia do poeta curitibano. É Ramil cantando esses poemas com a mesma economia que usa na milonga.
O que entrou no repertório
São quinze faixas. Treze nasceram naquela sequência de cerca de catorze dias. Duas já existiam. O velho León e Natália em Coyoacán estava em Tambong, de 2000. Uma carta uma brasa tinha sido gravada por Juliana Cortes no disco Gris, de 2016. Alguns poemas nem tinham título e foram batizados por Ramil. A faixa que nomeia o álbum é uma delas. O texto de apresentação que ele escreveu para o disco chama Leminski de lírico e de cachorro louco ao mesmo tempo: o poeta que associa esquecimento e chuva no telhado à felicidade, e que também desarruma o piquenique.
A coprodução é dividida por cidade. Alexandre Fonseca trabalhou no Rio de Janeiro. Edu Martins, em Porto Alegre. Fonseca entra em bateria, tabla, percussão e programação. Martins, no baixo sintetizado. Ramil fica na voz e nos violões. Em Sujeito indireto a bateria sai e entra uma máquina de escrever. Em Teu vulto há gravações de batidas nas esculturas de metal de Rogério Botelho. O experimentalismo não substitui a milonga. A milonga continua sendo o chão, como nos discos anteriores.
Por que este disco, e não uma homenagem genérica
Ramil já tinha musicado poema alheio com regra clara. Em délibáb, Borges e João da Cunha Vargas dividem o álbum. Em Avenida Angélica, os poemas são de Angélica Freitas. Mantra Concreto é o volume em que o poeta é Leminski, no ano em que se completavam oitenta anos do nascimento dele. A escolha não é de antologia escolar. É de cantor que lê um livro até achar a nota da primeira frase e não para.
Quem conhece Leminski pela quadra curta e pelo trocadilho encontra aqui outra duração. A canção segura o poema por alguns minutos, com violão e, às vezes, com ruído de máquina. Quem conhece Ramil por Ramilonga reconhece a voz próxima e o passo da milonga, agora com letra que não veio do pampa nem de Satolep. O cruzamento é o assunto do disco.
- Lançamento: 10 de outubro de 2024, Satolep Music
- Origem: leitura de Toda poesia em julho de 2021
- Forma: quinze faixas, treze compostas em cerca de catorze dias
- Base: milonga, com máquina de escrever e escultura em metal
- Capa: Felipe Taborda, com o nome dos dois na mesma grade
Como ouvir e o que não esperar
O CD está na loja da Satolep Music. As plataformas digitais levam o mesmo repertório. Um começo útil é Sujeito indireto, a primeira melodia da série, pela percussão de máquina de escrever. Outro é a faixa-título, curta, que fecha o método no nome. Não espere biografia de Leminski, nem reinvenção da estética do frio do zero. Espere o compositor de Pelotas cantando o poeta de Curitiba sem largar o violão milongueiro.
O disco também mostra que a fronteira dele não é só de mapa. Borges, Pessoa, Freitas e Leminski entram quando o poema aguenta melodia. Mantra Concreto é o caso mais recente, e o mais explícito, dessa regra.




