Contexto e proposta de Candomblés da Bahia
Publicado em 1948, Candomblés da Bahia é um dos retratos mais completos das casas de culto de Salvador escritos no século XX. Edison Carneiro acompanha a hierarquia dos terreiros, os papéis de mães e pais de santo, ogãs e filhos de santo, as festas públicas, os rituais e a relação das comunidades com os orixás — num período em que o candomblé ainda era tratado como caso de polícia e dependia de autorização oficial para realizar suas celebrações.
O diferencial do livro está na proximidade do autor com o tema. Edison Carneiro circulava pelos terreiros desde os anos 1930 e usava essa convivência para descrever o culto por dentro, com atenção a nomes, funções, cantos e gestos. O próprio Jorge Amado chamava o amigo de cicerone dos pesquisadores que chegavam à Bahia em busca dos pais e mães de santo. Não é um relato distante: é a tentativa de entender como a religião se organiza, se transmite e se protege.
O pesquisador também atuou como ponte entre os terreiros e o poder público. Nos anos 1930 e 1940, quando as casas de culto dependiam de licença policial para funcionar, Edison Carneiro levava demandas das comunidades religiosas às elites baianas e defendia a liberdade de culto em artigos de jornal e em congressos. O livro carrega esse olhar: em vez de tratar o candomblé como crendice a ser corrigida, descreve uma religião organizada, com hierarquia, rituais e transmissão de saber próprios.
A edição original saiu pela extinta Publicações do Museu do Estado da Bahia, e edições históricas do livro traziam desenhos do artista Carybé, que dedicou parte de sua obra ao universo afro-brasileiro. A edição em catálogo é a da WMF Martins Fontes, de 2008, com 200 páginas, integrada à série de reedições dos livros de Edison Carneiro.
Para quem pesquisa antropologia, história das religiões ou cultura baiana, o volume é uma fonte sobre a organização do candomblé antes das transformações das últimas décadas. Também serve a leitores que querem entender, sem estereótipos, o funcionamento de uma casa de santo — tema que Edison Carneiro ajudou a levar para o debate público em eventos como o II Congresso Afro-Brasileiro, em 1937.
Vale situar o volume no conjunto da obra: antes dele, o autor havia publicado Religiões Negras (1936) e Negros Bantos (1937), também dedicados às religiões afro-brasileiras. Candomblés da Bahia é o título mais centrado na vida cotidiana das casas de culto de Salvador entre todos os seus livros.





