Contexto e proposta de O Quilombo dos Palmares
O Quilombo dos Palmares foi o mais duradouro refúgio de pessoas escravizadas do Brasil colonial. Formado no século XVII na Serra da Barriga, na região que hoje fica entre Alagoas e Pernambuco, o núcleo resistiu por quase um século às expedições militares da Coroa portuguesa e se tornou o símbolo mais conhecido da luta contra a escravidão no país. É essa história que Edison Carneiro reconstrói neste livro, publicado pela primeira vez em 1947.
A proposta é histórica: acompanhar a formação dos mocambos, a organização interna do quilombo, os conflitos com as forças coloniais e os acordos que antecederam a destruição do núcleo, em 1694, e a morte de Zumbi, em 20 de novembro de 1695. Edison Carneiro escreveu o livro no mesmo período em que pesquisava o candomblé baiano, e as duas frentes se conectam: em ambos os casos, o que está em jogo é a capacidade de organização e de resistência das populações negras diante da sociedade escravista.
O episódio que o livro narra começa com as fugas que deram origem aos primeiros mocambos ainda no início do século XVII, durante a ocupação holandesa de Pernambuco, e se estende até a destruição do núcleo pelas forças de Domingos Jorge Velho, em 1694. No meio do caminho estão a liderança de Ganga Zumba, o acordo de paz de 1678 e a recusa de Zumbi em aceitar os termos propostos pela Coroa — passagens que ajudam a entender por que Palmares se tornou referência de resistência para o movimento negro séculos depois.
Desde o lançamento, a obra atravessou gerações de leitores. Teve nova edição em 1958, pela Companhia Editora Nacional, e ganhou uma edição revista em 2011, pela WMF Martins Fontes, com 272 páginas. Para quem estuda a história colonial, as relações raciais ou a trajetória do movimento negro, o livro continua sendo uma porta de entrada para entender como Palmares se formou, como funcionava e por que sua memória permanece viva — do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, aos debates atuais sobre quilombos e territórios.
Por ser um estudo de referência, o volume é usado em cursos de história, projetos de educação antirracista e pesquisas sobre o período colonial. A leitura também funciona como contraponto a visões que tratam o quilombo apenas como foco de conflito militar: Edison Carneiro se interessa pela vida cotidiana do núcleo e pelas relações entre os mocambos, que permitiram a Palmares durar décadas.
O volume ajuda ainda a situar a obra do autor. Quem lê O Quilombo dos Palmares encontra o mesmo pesquisador que, em Candomblés da Bahia e nos estudos sobre folclore, olhava para as formas de vida e de organização criadas pelas populações negras — no caso de Palmares, uma experiência de comunidade que desafiou a ordem colonial.
Detalhe que mostra o alcance do estudo: a primeira edição saiu no México, em 1947, antes de chegar ao Brasil — indício do interesse internacional pela história afro-brasileira naquele momento. A edição em catálogo é a da WMF Martins Fontes, integrada ao conjunto de reedições da obra de Edison Carneiro. O livro interessa a estudantes, professores e leitores que querem conhecer o episódio por dentro, sem depender apenas de resumos escolares.





