Imagem de capa do perfil de Edison Carneiro
Foto de perfil de Edison Carneiro

Edison Carneiro

Nascimento: 1912 Salvador, Bahia
Ver projetos (5)
Escritor, folclorista e etnógrafo baiano, Edison Carneiro (1912-1972) pesquisou o candomblé, a capoeira e a cultura afro-brasileira e dá nome ao Museu de Folclore, no Rio.

Em janeiro de 1937, o salão nobre do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia recebeu uma plateia nada convencional para a Salvador daquele tempo: capoeiristas, sambadeiras, líderes de terreiros, trabalhadores, estudantes e intelectuais. A sessão de abertura do II Congresso Afro-Brasileiro foi presidida pelo babalô Martiniano Eliseu do Bonfim, e um dos organizadores do encontro tinha apenas 24 anos: Edison Carneiro. Do congresso nasceram a União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia e o pedido que abriu caminho para o Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, de Mestre Bimba.

Edison de Souza Carneiro (Salvador, 12 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1972) foi escritor, folclorista, etnógrafo e historiador. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, atuou como jornalista, militou no Partido Comunista Brasileiro e construiu, sem cátedra universitária, uma das obras centrais sobre a presença africana no Brasil. Seu nome atravessa a história das ciências sociais brasileiras ao lado de pesquisadores como Arthur Ramos e Nina Rodrigues, e sua produção ajudou a colocar o candomblé, a capoeira e o samba no centro do debate cultural do país.

Quem foi Edison Carneiro

Edison cresceu em uma família baiana de prestígio intelectual. O pai, Antonio Joaquim de Souza Carneiro, era engenheiro civil, professor da Escola Politécnica da Bahia e autor de livros técnicos e esotéricos; a casa dos Souza Carneiro, em Salvador, funcionava como ponto de encontro de estudantes e escritores. O irmão mais velho, o jornalista Nelson de Souza Carneiro, faria carreira política como deputado federal e senador, e a filha dele, Laura Carneiro, também chegou à Câmara dos Deputados.

Ainda adolescente, Edison publicou poemas, crônicas e contos em jornais de Salvador e ajudou a fundar a Academia dos Rebeldes, agremiação criada em 1928 que reunia jovens escritores, entre eles Jorge Amado. O grupo lançou as revistas Meridiano e O Momento e se propunha a renovar o cenário intelectual baiano, com uma leitura crítica da realidade local e desconfiança em relação ao modernismo do eixo Rio–São Paulo. Em 1930, Edison publicou Lenita, seu único romance.

Em 1931, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, onde se formou em outubro de 1935, depois de uma vida estudantil marcada pela organização de agremiações e pela militância no movimento estudantil. No mesmo período, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e passou a pesquisar as condições de vida dos trabalhadores negros. O artigo Situação do negro no Brasil, apresentado por ele no I Congresso Afro-Brasileiro do Recife, em 1934, e publicado no ano seguinte, defendeu que raça e classe fossem analisadas em conjunto — uma abordagem que a crítica posterior associaria ao que hoje se chama de marxismo negro.

O que Edison Carneiro pesquisou no candomblé e na cultura afro-brasileira

A relação de Edison Carneiro com os terreiros de Salvador foi além da observação. Ele conviveu com mães e pais de santo, atuou como mediador entre as comunidades religiosas e as elites baianas e usou essa proximidade para documentar, por dentro, a organização do candomblé. Não por acaso, tornou-se um dos principais intérpretes da chamada “Roma africana” que Salvador representava para os estudiosos da época.

Os primeiros livros vieram nos anos 1930: Religiões Negras (1936) e Negros Bantos (1937), lançados pela Civilização Brasileira, sistematizaram suas pesquisas de campo nos terreiros. Em 1948, publicou Candomblés da Bahia, retrato das casas de culto de Salvador editado num período em que as religiões de matriz africana ainda enfrentavam perseguição policial e exigiam autorização prévia para realizar festas.

Edison também organizou dois encontros decisivos para o movimento negro brasileiro. O II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador em 1937 ao lado de Aydano do Couto Ferraz, levou capoeiristas, sambadeiras, líderes de terreiros, trabalhadores e intelectuais para o mesmo salão — um contraste com o I Congresso Afro-Brasileiro, realizado três anos antes no Recife e organizado por Gilberto Freyre, que reunira sobretudo intelectuais. Em 1950, no Rio de Janeiro, ajudou a organizar o I Congresso do Negro Brasileiro, ao lado de Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos, no âmbito do Teatro Experimental do Negro.

Quais são as principais obras de Edison Carneiro

Entre etnografia, história, folclore e antologias, Edison Carneiro publicou mais de vinte títulos. Alguns atravessaram décadas e seguem em catálogo:

  • Religiões Negras e Negros Bantos (1936-1937) — estudos de campo sobre religiões e folclore afro-brasileiros;
  • O Quilombo dos Palmares (1947) — reconstituição histórica do mais duradouro refúgio de pessoas escravizadas do Brasil colonial, reeditado em 1958 e 2011;
  • Candomblés da Bahia (1948) — etnografia das casas de culto de Salvador;
  • Antologia do Negro Brasileiro (1950) — coletânea de textos de vários autores sobre a presença negra no país;
  • A Sabedoria Popular — reunião de estudos sobre cultura popular;
  • Ladinos e Crioulos (1964) — conjunto de estudos sobre o negro no Brasil;
  • Dinâmica do Folclore (1965) — reflexão sobre o que é folclore e como ele se transforma;
  • Capoeira (1975) — volume publicado postumamente na coleção Cadernos de Folclore, da Funarte.

O livro sobre Palmares saiu primeiro no México, em 1947, e depois no Brasil; a edição brasileira mais recente é de 2011. Já Dinâmica do Folclore nasceu de uma tese escrita em 1950 para concorrer à cátedra de Antropologia e Etnografia da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro — posto que Edison não conquistou. O texto só foi publicado em livro em 1965 e se tornou uma de suas obras mais citadas.

O que Edison Carneiro dirigiu no folclore brasileiro

A partir dos anos 1950, Edison Carneiro passou a se dedicar quase integralmente ao movimento folclórico brasileiro. Entre 1961 e 1964, dirigiu a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, órgão do Ministério da Educação e Cultura criado em 1958 para estimular a pesquisa, a documentação e o ensino do folclore no país. Na direção da Campanha, encabeçou a criação da Revista Brasileira de Folclore e articulou comissões estaduais de pesquisa. Foi afastado do cargo pela ditadura militar que tomou o poder em 1964.

O trabalho no folclore não era separado de seu interesse pela cultura negra. Edison via as escolas de samba, a capoeira e as festas populares como manifestações vivas, que se transformam com a cidade em vez de desaparecer com ela — tese que defendeu em Dinâmica do Folclore e em artigos publicados ao longo de décadas. Sua relação com as agremiações cariocas rendeu homenagens como o título de Grande Benemérito da Portela e a condição de sócio honorário do Salgueiro e da Mangueira. Em Salvador, foi presidente de honra do Afoxé Filhos de Gandhi; no Recife, do clube de frevo Pás Douradas.

Por que o Museu de Folclore leva o nome dele

O Museu de Folclore Edison Carneiro, no Rio de Janeiro, funciona hoje no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, do Iphan, e leva seu nome por causa do papel que ele teve na criação e na consolidação do espaço, dedicado à pesquisa e à preservação da cultura popular brasileira. Em março de 2026, o museu inaugurou, no terraço do prédio, um mural em homenagem ao pesquisador, produzido pelo projeto Negro Muro.

Edison Carneiro morreu no Rio de Janeiro em 2 de dezembro de 1972, aos 60 anos. Sem nunca ter ocupado uma cátedra universitária, construiu uma obra que permanece como ponto de partida documentado para quem pesquisa religiões de matriz africana, quilombos, capoeira e cultura popular. As reedições de seus livros pela WMF Martins Fontes, entre 2008 e 2012, e a permanência do Museu de Folclore com seu nome mostram que a obra segue disponível para novas gerações de leitores e pesquisadores.

Experiências da comunidade

Avaliações sobre Edison Carneiro

Veja as opiniões dos leitores e compartilhe sua experiência.

0 avaliações positivas e 0 negativas com comentário.

Relatos publicados

Opiniões dos leitores sobre suas experiências. As avaliações não comprovam fatos nem representam a posição do site.

Ainda não há avaliações com comentário. Sua experiência pode ajudar o próximo leitor.

Para contestar um relato ou solicitar a remoção dos seus dados, entre em contato e informe a página e o comentário.

Compartilhe sua avaliação

Escreva de 60 a 200 palavras sobre esta pessoa ou projeto. Não inclua anúncios, links, insultos ou dados pessoais.

Sua experiência

0 de 200 palavras · mínimo de 60

Carregando verificação humana...

Projetos de Edison Carneiro

Alguns links podem gerar comissão para o Autoridades.org. Confira o preço e a disponibilidade na plataforma antes de comprar.

O Quilombo dos Palmares
O Quilombo dos Palmares
Estudo clássico de Edison Carneiro sobre o Quilombo dos Palmares, publicado em 1947 e reeditado em 2011, com a história da resistência negra na Serra da Barriga.
00%
00%
Candomblés da Bahia
Candomblés da Bahia
Etnografia clássica de Edison Carneiro sobre os terreiros de Salvador, publicada em 1948 e reeditada pela WMF Martins Fontes, com a organização e os rituais do candomblé.
00%
00%
Ladinos e Crioulos
Ladinos e Crioulos
Conjunto de estudos de Edison Carneiro sobre o negro no Brasil, publicado em 1964 e reeditado em 2012, das formas de trabalho às manifestações culturais.
00%
00%
Dinâmica do Folclore
Dinâmica do Folclore
Livro de Edison Carneiro sobre o que é folclore e como a cultura popular se transforma, publicado em 1965 e reeditado pela WMF Martins Fontes em 2008.
00%
00%