Castelos de Areia é o livro que apresentou Davino Ribeiro de Sena ao público e o que definiu boa parte dos temas que ele exploraria nas décadas seguintes. Publicado em 1991 pela Estação Liberdade com a Fundação Nestlé de Cultura, tem 74 páginas e venceu o 5º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria poesia, em um júri formado por Gilberto Mendonça Teles, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Marcus Accioly, José Nêumane Pinto e Carlos Felipe Moisés.
Do que trata o livro
O título não é acidental. A imagem do castelo de areia atravessa o volume como metáfora do que se constrói e se desfaz: a infância, a casa de praia, os afetos, a memória. Os poemas olham para trás sem saudosismo fácil, com atenção ao que sobra depois que a água sobe.
O Recife e o litoral de Pernambuco entram como cenário e como tempo perdido. Há o mar, a luz forte, os quintais, os mortos da família, as cidades que mudam. Um dos poemas mais conhecidos do livro, Sombras e Borboletas, começa com dois versos que resumem o procedimento do autor: "Eu pego as sombras dos homens / como se fossem borboletas".
O próprio autor afirma que usou as palavras areia, ferro e vidro para descrever o processo de envelhecimento. Castelos de Areia é o primeiro termo dessa trilogia informal, que ganharia continuidade anos depois em Vidro e Ferro (1999).
Como o livro está construído
A escrita de Castelos de Areia já traz o traço que Davino manteria: predomínio de formas fixas, muitos sonetos, ritmo regular e rima trabalhada, sem que a metrificação sufoque a cena. O poeta conta uma história curta em cada poema, e é dessa mistura entre narrativa e forma clássica que nasceria, anos depois, o fotoneto.
Um exemplo do método é Gerúndio e Infinitivo, poema construído sobre verbos no infinitivo e no gerúndio, que descreve ações em série enquanto fala de solidão e hábito. O soneto Memórias, premiado pela Academia Pernambucana de Letras em 1983, já apontava para essa direção.
É um livro de estreia no melhor sentido: enxuto, com voz definida e um campo temático já reconhecível, em vez de exercício de imitação.
Para quem é a leitura
Serve a quem acompanha a poesia brasileira contemporânea e quer entender a formação de um autor que viria a construir uma obra longa. Também interessa a leitores de poemas de memória e de paisagem, escritos com precisão formal e sem hermetismo.
Como a edição é de 1991 e não teve reedição recente, exemplares impressos circulam principalmente entre sebos e colecionadores. A página oficial do autor mantém o livro documentado, com a ficha da edição e poemas selecionados.
Ler Castelos de Areia ao lado de Vidro e Ferro e de Ternura da Água ajuda a perceber o que mudou e o que permaneceu na poesia de Davino Sena: a memória continua no centro, mas o verso ganha narrativa e a cena ganha duração.
A obra na trajetória do autor
O prêmio recebido em 1991 colocou Davino Sena em circulação justamente quando ele iniciava a carreira diplomática, aberta em 1989. O prêmio da Fundação Nestlé de Cultura era um dos concursos literários mais conhecidos do país, e a vitória de um autor estreante chamou atenção para um livro de apenas 74 páginas.
A partir dali, cada remoção de posto passou a coincidir com um novo livro, e o primeiro deles continuou sendo a porta de entrada da obra: é nele que aparecem a areia, a memória e a perda, matérias-primas que o autor retomaria em títulos como Vidro e Ferro e Ternura da Água.





