Viagens do Conselheiro marca a passagem de Davino Ribeiro de Sena da poesia para a crônica. Publicado em 2020 pela Lumme Editora, com 168 páginas, o livro reúne textos em que o autor olha para o tempo, para os lugares por onde passou e para as pequenas cenas do cotidiano.
Do que trata o livro
O próprio autor resume o espírito da obra na abertura: lidamos de maneira incipiente com o tempo, falamos por metáforas e analogias, registramos acontecimentos para descendentes que talvez riam de nossa escrita obsoleta. A pergunta que organiza o volume é simples e antiga: o que sabemos sobre outros países, outros mundos? As viagens, diz ele, são apenas o começo.
As crônicas partem de situações concretas, como um esquilo que visita o comedouro no jardim, e chegam a reflexões sobre linguagem, memória e distância. O autor aproveita a experiência de quem morou em vários países para comparar hábitos, paisagens e palavras, sem transformar o livro em relato de turismo.
Crônicas do autor publicadas em revistas literárias mostram o procedimento: a observação de um esquilo no jardim vira ponto de partida para discutir etimologia, os nomes indígenas e africanos do mesmo animal e a mania humana de classificar tudo. É crônica de ideias, com os pés no chão.
Como o livro está construído
São textos curtos, de leitura independente, escritos com a objetividade que o autor atribui à própria formação diplomática e com a atenção ao detalhe que vem da poesia. Quem conhece os versos de Davino Sena reconhece aqui a mesma precisão de linguagem, agora aplicada à prosa.
A edição tem 168 páginas e formato de livro de crônicas, para leitura em intervalos. A ordem dos textos constrói um percurso: começa em cenas domésticas e avança para questões de tempo, memória e escrita, fechando com o tema que dá título ao volume.
Para quem é a leitura
É indicado a leitores de crônica brasileira, a quem se interessa por memória e deslocamento e a quem acompanha a obra do autor e quer vê-lo em outro registro. Funciona bem como primeiro livro para quem ainda não leu os poemas, porque mostra o mesmo olhar em linguagem mais direta.
Também agrada a quem vive ou viveu fora do Brasil e reconhece nas crônicas a experiência de traduzir o próprio cotidiano para outra língua e outra cultura. É um livro de leitura lenta, que rende mais quando saboreado aos poucos.
A obra na trajetória do autor
O volume saiu no ano seguinte à mudança do autor para o Canadá e reúne material escrito em diferentes cidades. Em 2022, ele se transferiu para a Guatemala, onde passou a residir com a esposa, a professora de música Maria do Socorro Melo Pinto, e de onde mantém a escrita e o site oficial.
Depois de Viagens do Conselheiro, Davino Sena seguiu publicando poemas em revistas literárias e mantendo a página pessoal, onde biografia, fotos e leituras em vídeo documentam a obra. O livro é, portanto, a porta de entrada da fase mais recente de um escritor que passou a vida mudando de país sem deixar de escrever.





