Quem é Davino Ribeiro de Sena
Em 1991, o primeiro livro de um diplomata recém-chegado à carreira venceu o 5º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, na categoria poesia. O júri reuniu Gilberto Mendonça Teles, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Marcus Accioly, José Nêumane Pinto e Carlos Felipe Moisés, e a obra laureada, Castelos de Areia, trazia a assinatura de Davino Ribeiro de Sena, poeta pernambucano que passaria as três décadas seguintes publicando livros entre postos diplomáticos na Europa, na Ásia, na Oceania, na África e nas Américas.
A vida dupla — chancelaria e poema — é o fio que atravessa a obra dele. Davino escreveu sobre a infância no Recife, sobre uma expedição científica do século XIX, sobre ilhas e sobre o envelhecimento, sempre com zelo de artesão: métrica, rima, sonoridade. Desse trabalho de forma nasceu o fotoneto, nome que ele criou para um poema que conta uma cena e, ao mesmo tempo, se comporta como soneto.
Da infância no Recife à formação em Filosofia
Nascido no Recife em 4 de abril de 1957, Davino cresceu em uma família de médicos. O bisavô foi prefeito de Gravatá e de Limoeiro, e o avô iniciou um negócio de plantação de café. As crises de asma levaram a família a se mudar para Boa Viagem quando ele tinha seis anos, e foi nesse período que o menino se recolheu a um mundo de livros e imaginação.
Estudou no Colégio Militar do Recife, morou nos bairros de Boa Vista, Espinheiro e Graças e manteve com os pais uma casa de praia em Rio Doce, paisagem que reaparece em vários poemas. Nos anos 1970, leu Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira e começou a escrever versos. Em 1982, casou-se com a professora de música Maria do Socorro Melo Pinto.
No ano seguinte, teve poemas publicados em jornais por Cesar Leal e venceu o prêmio estudantil de poesia da Academia Pernambucana de Letras com o soneto Memórias. Em 1984, formou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco.
O diplomata que escrevia entre países
Davino ingressou na carreira diplomática em 1989, dois anos antes de ver Castelos de Areia premiado. A partir dali, a poesia seguiu o mapa das remoções: Espanha, Austrália, Japão, onde foi cônsul em 2001, Nova York, onde foi cônsul em 2006, Arábia Saudita, Londres, Sri Lanka, Libéria, Canadá e, desde 2022, Guatemala.
Na chancelaria, especializou-se em ciência e tecnologia. Chefiou a delegação brasileira na reunião do Grupo de Valdívia pela preservação do albatroz, em 1999, acompanhou tropas brasileiras na missão das Nações Unidas em Timor Leste, em 2003, e viajou a Angola e Moçambique em missões de cooperação.
Em 1993, com apoio do Itamaraty, representou o Brasil no Encuentro Iberoamericano de Poesía, em Santiago do Chile, ao lado de Thiago de Mello e Fernando Mendes Viana. Do encontro saiu a antologia Un Ángulo del Mundo, que reuniu poetas de vários países ibero-americanos. Em 1994, deu palestra sobre literatura brasileira na Universidade de Athens, nos Estados Unidos, e, no ano seguinte, participou de uma mesa-redonda do seminário internacional de poesia da Universidade de Barcelona. Também leu poemas na Australian National University, em 1999, integrou o grupo catalão Cafè Central e teve três poemas publicados na revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2008.
O que é o fotoneto
Em Vidro e Ferro (1999), Davino apresentou a forma poética que batizou de fotoneto: um texto que combina a estrutura do soneto com uma cena narrativa e imagética, como se uma fotografia fosse revelada em versos.
A invenção ganhou estudo crítico. Em 2016, o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto publicou "Um Fotoneto de Davino Ribeiro de Sena" na revista Eutomia, da Universidade Federal de Pernambuco, analisando o procedimento. O conceito voltou em Ternura da Água (2015), livro organizado em capítulos, como um romance em verso.
Os livros de Davino Sena
A bibliografia cobre mais de trinta anos e três fases bem distintas: a poesia da memória, os longos poemas de motivo histórico e a crônica de viagem.
- Castelos de Areia (1991), estreia premiada pela Fundação Nestlé de Cultura;
- Pescador de Nuvens (1996), resenhado pelo crítico Augusto Massi na Folha de S.Paulo;
- Retrato com Guitarra (1997) e O Jaguar no Deserto (1997);
- Vidro e Ferro (1999), onde o fotoneto aparece pela primeira vez;
- Três Martes (2004), longo poema de motivo astronômico e mitológico;
- Lêgo & Davinovich (2006), em parceria com Elizabeth Hazin;
- Expedição (2007), poema sobre a Expedição Langsdorff;
- O Lento Aprendizado do Rapaz que Amava Ondas e Estrelas (2009);
- O Rei das Ilhas (2011);
- Ternura da Água (2015);
- Viagens do Conselheiro (2020), volume de crônicas.
As obras têm personalidade própria e não formam série. Três Martes busca na astronomia o material para um discurso longo; Expedição retorna à terra e à história do Brasil; Viagens do Conselheiro troca o verso pela crônica e examina o tempo com ironia.
Reconhecimento crítico e presença pública
A recepção da obra passou por nomes centrais da crítica brasileira. O crítico e professor Augusto Massi, que dirigiu a seção de literatura da Folha de S.Paulo nos anos 1980 e 1990, escreveu sobre Pescador de Nuvens no caderno Mais!. Mais tarde, o poeta Marco Lucchesi apresentou O Rei das Ilhas como um livro que aprofunda a obra do autor, e Paulo Henriques Britto dedicou um estudo ao fotoneto na Eutomia.
Ele mesmo descreve a relação com os leitores com discrição. Em entrevista à escritora Ana Paula Arendt, em 2017, disse que escreve para quem gosta de ler e que vê a poesia como "uma ponte para outra realidade, a realidade da imaginação".
A trajetória também rendeu convites institucionais: leituras em universidades, participação em antologias no Chile e na Espanha, colaboração em revistas literárias no Brasil e presença em eventos de poesia no exterior.
Perguntas frequentes sobre Davino Sena
Davino Sena é diplomata ou poeta?
As duas coisas, e de forma declarada. Ele ingressou na carreira diplomática em 1989 e publicou o primeiro livro dois anos depois. A escrita acompanhou as remoções de posto, e o próprio autor afirma que a diplomacia o obrigou a escrever com objetividade, enquanto a poesia lhe dava o espaço da imaginação.
Onde Davino Sena nasceu?
No Recife, em 4 de abril de 1957. A cidade, o litoral de Pernambuco e a casa de praia da família aparecem com frequência em seus poemas.
Qual foi o primeiro livro de Davino Sena?
Castelos de Areia, publicado em 1991 pela Estação Liberdade com a Fundação Nestlé de Cultura, vencedor do 5º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria poesia.
Onde encontrar a obra hoje
Parte do catálogo continua disponível em editoras ativas. Ternura da Água e O Rei das Ilhas seguem no catálogo da 7Letras; Viagens do Conselheiro é vendido pela Lumme Editora; Expedição tem edição impressa na Amazon. O site oficial, davinosena.com.br, reúne biografia, fotos, poemas e vídeos de leitura, e é o ponto de partida mais completo para quem quer acompanhar o autor.






