Ternura da Água chegou às livrarias em 2015, pela 7Letras, e é o livro em que Davino Ribeiro de Sena leva mais longe a ideia de contar histórias em verso. A própria editora descreve a obra como algo mais que poesia: o autor usa o rigor da composição, da métrica e das sonoridades internas, mas sempre para narrar, com fluência de prosa, uma boa história em cada texto.
Do que trata o livro
Como os romances de ficção, o volume é dividido em capítulos, e essa escolha já modula o tom da leitura. Os poemas tratam de água, tempo, perda e ternura, com a mesma atenção ao detalhe concreto que marca a obra do autor: a casa, o corpo que envelhece, a paisagem que muda, a memória que insiste.
O título dialoga com a trilogia informal que o autor construiu em torno de areia, ferro e vidro, as palavras que, segundo ele, descrevem o processo de envelhecimento. Em Ternura da Água, essa matéria ganha fluidez e se junta ao tempo como tema central.
O livro reafirma o fotoneto, forma criada por Davino Sena em Vidro e Ferro (1999). Trata-se de um poema que combina a estrutura do soneto com uma cena narrativa e imagética, como uma fotografia revelada em versos. Em Ternura da Água, o procedimento aparece de forma sistemática e ganhou análise crítica no artigo "Um Fotoneto de Davino Ribeiro de Sena", do poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, publicado na revista Eutomia em 2016.
Como o livro está construído
A estrutura em capítulos permite leituras em sequência, como se o leitor acompanhasse uma novela curta, mas cada poema funciona sozinho. A métrica regular e as rimas internas dão sustentação ao conjunto, e o ritmo narrativo evita que o livro pareça uma antologia de textos soltos.
O fotoneto aparece aqui em versão amadurecida: a cena tem começo, meio e fim, e a forma fixa garante que a história caiba em poucos versos sem perder tensão. É esse equilíbrio que fez o procedimento render estudo acadêmico e discussão crítica.
Para quem é a leitura
Serve a leitores que gostam de poesia com história, a quem se interessa por formas fixas reinventadas e a estudiosos do fotoneto. É também um bom título para quem quer conhecer a fase mais recente da poesia de Davino Sena antes de partir para as crônicas.
Professores de literatura podem usar o livro para discutir métrica e narrativa em sala de aula, já que os poemas são acessíveis na superfície e complexos na construção. Leitores que preferem prosa também encontram aqui uma ponte confortável para a poesia.
A obra na trajetória do autor
Publicado quando o autor vivia entre a Europa e a África, o livro encerra a fase de pesquisa formal iniciada em Vidro e Ferro e prepara a virada para a crônica, consolidada em Viagens do Conselheiro (2020). A água do título funciona como imagem de continuidade: é o elemento que atravessa a obra inteira, da praia de Rio Doce aos rios das expedições.
Antes do lançamento, o autor cursou escrita criativa na Universidade de Londres, em 2014, e passou uma temporada no Sri Lanka. Essa bagagem aparece no apuro da composição e na variedade de cenários do livro.





