O Rei das Ilhas, publicado pela 7Letras em 2011, foi escrito quando Davino Ribeiro de Sena já estava fixado em Londres, depois de passar por Japão, Estados Unidos e Arábia Saudita. O livro transforma a experiência de viver cercado de água em matéria poética, e usa a ilha como imagem do isolamento, do duplo e da memória.
Do que trata o livro
As ilhas do título não formam um arquipélago ordenado. Aparecem Riade, Olinda, Recife, a Inglaterra, lugares que se dissolvem à medida que são nomeados. O poema trata a ilha como destino compartilhado, autorretrato e pergunta: o que sobra de nós quando o chão é pequeno e cercado por todos os lados?
Na leitura de Marco Lucchesi, publicada na apresentação do livro, as ilhas de Davino Sena são "de todo incapazes de formarem arquipélago", e a imagem do rei aparece desprovida de chaves, habitada pelo fantasma dos sentidos. É uma chave de leitura que ajuda a entender o livro: não se trata de celebrar paraísos, mas de examinar o isolamento como condição.
O poeta Marco Lucchesi apresentou o livro destacando que ali Davino Sena atinge um grau mais profundo e ao mesmo tempo mais impreciso de sua obra, e comparou o rei do título ao barão de Jorge de Lima, personagem sem chaves e habitado pelos sentidos.
Como o livro está construído
A escrita mantém o rigor formal característico do autor, com metros regulares e sonoridade trabalhada, agora a serviço de uma paisagem mais abstrata. Os poemas se organizam como séries de variações sobre o mesmo motivo, e cada texto acrescenta uma camada ao tema sem repetir o anterior.
O livro foi escrito na passagem entre a temporada na Arábia Saudita, onde o autor viveu a partir de 2008, e a fixação em Londres, em 2011. As duas paisagens insulares atravessam os poemas e explicam a mistura de minaretes, torres, sinos e praias que aparece no conjunto.
Para quem é a leitura
É uma boa porta de entrada para quem quer conhecer a poesia de Davino Sena em sua fase madura, sem começar pelo livro de estreia. Agrada a leitores de poesia reflexiva, de imagens insulares e de escrita que pensa o deslocamento e a identidade.
Por ser um livro curto e coeso, funciona bem em clubes de leitura e em cursos de poesia contemporânea. Também dialoga com a experiência de quem vive fora do país e reconhece no poema a sensação de estar sempre de passagem.
A obra na trajetória do autor
O Rei das Ilhas fecha um ciclo de livros escritos fora do Brasil e prepara o caminho para Ternura da Água (2015), em que o autor levaria adiante o fotoneto e a estrutura em capítulos. Quem lê os dois livros em sequência percebe a passagem de uma poesia de paisagem para uma poesia de narrativa.
Antes dele, O Lento Aprendizado do Rapaz que Amava Ondas e Estrelas (2009) deu sequência ao trabalho com memória e paisagem. Os três títulos formam, juntos, um bloco publicado entre a Arábia Saudita, a Inglaterra e o Sri Lanka.





