Comboio de Sal e Açúcar parte de uma viagem que existiu de verdade: durante a guerra civil moçambicana, um trem saía de Nampula rumo ao Maláui levando passageiros e mercadorias por centenas de quilômetros de território controlado por guerrilhas. Era a única ligação entre regiões isoladas, e a bordo viajavam comerciantes dispostos a arriscar a vida para trocar sal por açúcar. É essa viagem que Licínio Azevedo transforma em filme.
Lançado em 2016, Comboio de Sal e Açúcar nasceu de um romance publicado pelo próprio diretor em 1997, escrito a partir de histórias ouvidas no período em que cobria a guerra como jornalista. A adaptação levou quase duas décadas para sair do papel e se tornou a produção mais vista e premiada da carreira de Azevedo.
A história e o contexto
A trama se passa em 1989, nos últimos anos do conflito que opôs o governo da FRELIMO à RENAMO. A enfermeira Rosa viaja para assumir o primeiro emprego e divide o vagão com Mariamu, comerciante experiente que conhece os riscos da rota. Pelo caminho, o trem é detido por trilhos sabotados, sofre emboscadas e obriga civis a reparar a linha sob ameaça. Os militares que escoltam a composição — entre eles o tenente Taiar e o violento oficial Salomão — disputam autoridade, e a violência contra as mulheres atravessa a viagem.
O roteiro, assinado por Azevedo e Teresa Pereira, não trata a guerra como pano de fundo distante: ela aparece na rotina, nos pequenos acordos e nas decisões de sobrevivência de quem está no trem. É um filme de aventura com estrutura de jornada, mas o que interessa ao diretor é o comportamento das pessoas quando o mundo ao redor desmorona.
Elenco e produção
O elenco mistura atores profissionais e não profissionais, prática recorrente no cinema de Azevedo. Matamba Joaquim interpreta o tenente Taiar, Melanie de Vales Rafael vive Rosa, Thiago Justino é Salomão e António Nipita faz o comandante Sete Caminhos. A fotografia ficou a cargo do francês Frédéric Serve, e a música é de João Carlos Schwalbach.
Com duração de 93 minutos e idioma português, o filme é uma coprodução internacional entre Moçambique, Portugal, França, África do Sul e Brasil. A gaúcha Panda Filmes entrou como coprodutora brasileira, na primeira parceria do diretor com uma empresa do país onde nasceu.
Estreia e reconhecimento
Comboio de Sal e Açúcar estreou em 10 de agosto de 2016 no Festival de Locarno, na Suíça, e foi exibido em seguida em festivais da África e da Europa. No fim daquele ano, venceu a primeira edição do Festival de Cinema de Joanesburgo, na África do Sul.
Em setembro de 2017, foi escolhido para representar Moçambique na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2018. Foi a primeira vez que o país submeteu um título à Academia, um marco para uma cinematografia que havia sido destruída pela guerra e reconstruída por produtoras independentes como a Ébano Multimídia.
Para quem é este filme
Comboio de Sal e Açúcar interessa a quem acompanha o cinema africano de ficção, a história das guerras de descolonização e as adaptações literárias feitas pelo próprio autor. Também funciona como porta de entrada para a obra de Azevedo: concentra o olhar documental sobre a vida cotidiana, a experiência de rodar em locações reais e a recusa em transformar o conflito moçambicano em espetáculo.
Quem quiser conhecer o restante da obra pode ver o filme ao lado de Virgem Margarida, o primeiro da trilogia Amor e Guerra, e do documentário Acampamento de Desminagem, sobre as minas terrestres deixadas pelo conflito.





