Virgem Margarida parte de um episódio pouco discutido dos primeiros anos da independência de Moçambique. Em 1975, com a revolução recém-proclamada, o governo decidiu "limpar" as ruas de Maputo de prostitutas e maus hábitos. Centenas de mulheres foram enviadas para centros de reeducação no interior do país, onde deveriam se transformar em cidadãs leais ao novo Estado. Margarida, uma adolescente de 16 anos que vinha do campo, foi levada por engano junto com o grupo. É essa história que Licínio Azevedo conta no filme.
O filme nasceu de uma pesquisa documental. Em 1999, o diretor havia lançado A Última Prostituta, documentário com entrevistas de mulheres que passaram por esses centros e contaram como foram classificadas como prostitutas — muitas eram dançarinas, mães de família ou trabalhadoras — e submetidas a um processo que separava o que o regime considerava "vícios do período colonial".
A história
No centro de reeducação, Margarida descobre que o erro de identidade não é fácil de corrigir: ninguém ouve sua versão, e a rotina de trabalho, disciplina e vigilância começa imediatamente. A convivência com outras internas revela histórias distintas e um sistema que pune mulheres por comportamentos que a independência declarava extintos. O roteiro evita o maniqueísmo e mostra a complexidade das relações entre as próprias mulheres, divididas entre a solidariedade e a disputa por sobrevivência.
A personagem central é vivida por Sumeia Maculuva, com atuações de Hermelinda Cimela, Iva Mugalela e Rosa Mario no elenco de apoio. Como nos outros filmes do diretor, o elenco combina atrizes profissionais e moradoras das comunidades onde a produção foi rodada, e o idioma é o português de Moçambique.
Estreia e circulação
Virgem Margarida estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2012 e rodou festivais na Europa, na África e nas Américas. O filme é uma coprodução entre Moçambique, Portugal e França, com duração de 90 minutos.
A circulação em festivais rendeu prêmios ao filme. No Festival Internacional de Cinema de Amiens, na França, ganhou o Prêmio do Público de Melhor Filme e uma menção especial do júri SIGNIS. No mesmo ano, foi indicado ao Tanit d'Or, prêmio principal do Festival de Cinema de Cartago, na Tunísia. Em 2014, a atriz Rosa Mario recebeu o Troféu Andorinha de melhor atriz coadjuvante no Cineport, festival de cinema português.
Ele abre a trilogia Amor e Guerra, que o diretor dedicou aos efeitos do conflito sobre a sociedade moçambicana. O segundo título é Comboio de Sal e Açúcar (2016), e o conjunto é revisitado com frequência em retrospectivas da obra de Azevedo, como a que a Cinemateca Paulo Amorim dedicou ao cineasta em Porto Alegre, em 2022.
Por que assistir
Virgem Margarida é um filme sobre memória e sobre o que as revoluções fazem com as pessoas comuns. Interessa a quem pesquisa a história de Moçambique, a questão de gênero em processos de independência e o cinema político feito fora dos grandes centros. Também dialoga com debate atual sobre a revisão de episódios pouco discutidos das independências africanas.
Assistir ao filme antes de Comboio de Sal e Açúcar ajuda a perceber a continuidade do projeto de Azevedo: em ambos, a guerra e a revolução aparecem pelo olhar de mulheres que tentam atravessar o caos com o que têm.





