Em 1978, Licínio Azevedo desembarcou em Maputo com um convite de Ruy Guerra e a intenção de ficar alguns meses. O repórter gaúcho havia deixado o Brasil para escapar da perseguição política, cinco anos depois de publicar reportagens que acusavam o delegado Pedro Selling, do DOPS, de tortura e homicídios. Moçambique era um país recém-independente que precisava inventar o próprio cinema — e foi nessa tarefa que Azevedo encontrou a sua obra.
Quatro décadas depois, ele é o cineasta mais associado à história do cinema moçambicano, autor de um romance adaptado para as telas e reconhecido em festivais da Europa, da África e do Brasil. Brasileiro de nascimento, moçambicano de adoção, construiu uma trajetória que passa pelo jornalismo investigativo, pelos relatos de guerra e por mais de 50 produções audiovisuais.
Quem é Licínio Azevedo
Nascido em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, em 27 de maio de 1951, Licínio Azevedo é jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, escritor, roteirista, produtor e diretor de cinema. Desde o fim dos anos 1970 vive em Maputo, capital de Moçambique, onde fundou a produtora Ébano Multimídia e participou da construção das primeiras estruturas de cinema do país.
A obra dele é atravessada por um tema central: como as sociedades saem da guerra. A guerra civil moçambicana, que durou de 1977 a 1992, aparece em documentários, em filmes de ficção e no romance Comboio de sal e açúcar. É um cinema feito com equipes locais, línguas locais e histórias contadas a partir de dentro, o que ajuda a explicar a circulação internacional de seus filmes em festivais como Locarno, Roterdã e Toronto.
De Novo Hamburgo a Maputo: a formação de um repórter
Da reportagem policial ao exílio
Filho de uma família gaúcha, Azevedo estudou em Porto Alegre e ingressou no curso de Direito antes de migrar para o Jornalismo, formando-se em 1975. Começou a trabalhar ainda na faculdade, na editoria de polícia do jornal Zero Hora, e depois foi editor de polícia na Folha da Manhã.
Foi nesse período que investigou o delegado Pedro Selling, titular do DOPS, acusado de tortura e homicídios durante a ditadura militar. A série de reportagens rendeu perseguição e o obrigou a deixar o Brasil. Passou pela Argentina e por outros países da América Latina, cobrindo movimentos de libertação popular no Peru, na Bolívia, na Guatemala, na Nicarágua, no Uruguai e no México.
De volta a São Paulo, assinou no Jornal da Tarde uma série de reportagens sobre o terremoto que devastou a Guatemala em fevereiro de 1976, ao lado do repórter Caco Barcellos e do fotógrafo Avani Stein. O trabalho de apuração em zonas de conflito marcaria o método que ele levaria depois para o cinema.
Imprensa alternativa e Prêmio Vladimir Herzog
Enquanto criticava o regime militar, Azevedo colaborou com publicações da imprensa alternativa brasileira, entre elas Versus, Movimento, Repórter, Opinião e o Coojornal, de Porto Alegre. Em 1980, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos pela reportagem "Valeu a pena voltar?", publicada no Coojornal.
A partir de 1976 começou a trabalhar fora do Brasil. Passou por Portugal e se instalou na Guiné-Bissau, onde atuou no jornal Nô Pintcha e acompanhou viagens do então presidente Luís Cabral ao interior do país. Foi em 1978, a convite do cineasta Ruy Guerra, que chegou a Maputo — a cidade que se tornaria sua casa.
Como Licínio Azevedo ajudou a criar o cinema de Moçambique
Instituto Nacional de Cinema
Pouco depois de chegar, Azevedo integrou o grupo que estruturou o Instituto Nacional de Cinema de Moçambique, iniciativa do primeiro presidente do país, Samora Machel. Pelo instituto passaram nomes como Jean Rouch, Jean-Luc Godard, José Celso Martinez Correa, Murilo Salles, Guel Arraes e Santiago Álvarez. Em 1979, Azevedo assinou o roteiro do documentário Mueda — Memória e Massacre, dirigido por Ruy Guerra e considerado um marco do cinema moçambicano.
Ébano Multimídia
No início dos anos 1990, quando o cinema estatal havia sido desmontado pela guerra, Azevedo fundou a Ébano Multimídia, primeira produtora independente de cinema de Moçambique. A empresa realizou dezenas de documentários e longas de ficção, muitos deles em coprodução com Portugal, França, África do Sul e Brasil. A prática de rodar com equipes moçambicanas e atores não profissionais se tornou uma marca de seus filmes.
Quais são as obras mais conhecidas de Licínio Azevedo
Virgem Margarida e a trilogia Amor e Guerra
Em Virgem Margarida (2012), uma jovem de 16 anos do interior é levada por engano a um centro de reeducação criado nos primeiros anos da independência para transformar prostitutas e dançarinas em "mulheres novas". O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto e abriu a trilogia Amor e Guerra, dedicada às consequências sociais da guerra civil. A história nasceu de um documentário anterior, A Última Prostituta (1999).
Comboio de Sal e Açúcar e a candidatura ao Oscar
O romance Comboio de sal e açúcar (1997) virou filme em 2016, com direção do próprio Azevedo e coprodução da brasileira Panda Filmes. A trama acompanha a viagem de um trem entre Nampula e o Maláui, a única ligação entre regiões isoladas pela guerra, e as pessoas que arriscavam a vida para trocar sal por açúcar. O longa estreou no Festival de Locarno, venceu o Festival de Cinema de Joanesburgo e foi escolhido para representar Moçambique na disputa por uma vaga no Oscar 2018 — a primeira vez que o país submeteu um filme à Academia.
Livros de Licínio Azevedo
Antes de dirigir ficção, Azevedo publicou livros que nasceram da experiência como repórter. Os relatos sobre a guerrilha em Guiné-Bissau e em Moçambique serviram de base para roteiros de filmes, incluindo o primeiro longa de ficção moçambicano, O Tempo dos Leopardos (1985). A lista reúne:
- Diário da libertação (1977), escrito com Maria da Paz Rodrigues, sobre a guerra de independência da Guiné-Bissau;
- Moçambique — com os mirages sul-africanos a quatro minutos (1980), que deu origem a documentários;
- Relatos de um povo armado (1983), sobre episódios da luta pela independência de Moçambique;
- Coração Forte (1995), livro de contos;
- Comboio de sal e açúcar (1997), romance adaptado para o cinema em 2016.
Para quem quiser começar pela ficção, o romance é a porta de entrada mais direta: ele concentra o olhar do autor sobre as pessoas comuns que atravessam a guerra, tema que reaparece nos documentários e nos filmes seguintes.
Prêmios e homenagens
Azevedo é o único cineasta a vencer três vezes o FIPA, festival de Biarritz dedicado a produções para televisão, com duas pratas em ficção e um ouro em grandes reportagens. Em 1999, recebeu o prêmio da FUNDAC, de Maputo, pelo conjunto da obra.
Em 2015, a Cinemateca Portuguesa organizou o ciclo O Espírito do Lugar: Licínio Azevedo, Cineasta de Moçambique, e o 39º Französische Filmtage, na Alemanha, apresentou uma retrospectiva de seus filmes. Em 2022, a Cinemateca Paulo Amorim, em Porto Alegre, dedicou ao diretor a mostra Licínio Azevedo — Um Gaúcho em Moçambique, exibindo títulos como O Grande Bazar, Hóspedes da Noite, Acampamento de Desminagem e Comboio de Sal e Açúcar.
Perguntas frequentes sobre Licínio Azevedo
Licínio Azevedo mora no Brasil ou em Moçambique?
Ele vive em Maputo desde 1978. A produção de seus filmes, a Ébano Multimídia e o trabalho de pesquisa das histórias estão ligados à capital moçambicana, ainda que parte dos projetos mantenha coprodução com empresas brasileiras e europeias.
Onde assistir aos filmes de Licínio Azevedo?
A obra circula principalmente em festivais, mostras de cinema e cineclubes. Retrospectivas organizadas por cinematecas e festivais, como as de Lisboa (2015), da Alemanha (2015) e de Porto Alegre (2022), são a forma mais frequente de ver os filmes na tela grande no Brasil. Para consultar a filmografia completa e localizar cópias, o perfil do diretor no IMDb reúne os títulos e as produtoras envolvidas.
Qual é a relação de Licínio Azevedo com o Rio Grande do Sul?
Ele nasceu e se formou jornalista no estado e mantém vínculo com a produção cultural gaúcha. A produtora Panda Filmes, de Porto Alegre, coproduziu Comboio de Sal e Açúcar, e a Cinemateca Paulo Amorim organizou a retrospectiva de 2022 com participação do diretor em todas as sessões.
O trabalho mais recente é documentário ou ficção?
As duas coisas. Depois de virar o romance em filme, Azevedo continuou dividido entre documentários e ficção, com destaque para o curta Nhinguitimo (2021), exibido na retrospectiva de Porto Alegre, e para histórias sobre a vida no interior de Moçambique, tema recorrente em sua filmografia.






