Corações de papel reúne as cartas que Nelson Motta escreveu, aos vinte anos, para Ana Luísa, entre 1964 e 1965. A Record publicou o livro em 4 de novembro de 2024, com 160 páginas. É a estreia dele nessa editora. A história do volume começa dez anos antes do lançamento. Por volta de 2014, quando ele completou setenta, uma amiga de longa data ligou e entregou uma pasta azul com as cartas, guardadas em ordem. Ele tinha namorado Ana Luísa na faculdade, no período em que estudava design, e o romance acabou depois de uma traição dele. Ela viajou para uma temporada longa em Paris e conservou o maço.
As cartas ficaram numa gaveta do apartamento antigo, em Ipanema. Anos depois, enquanto escrevia as memórias De cu pra lua, ele abriu a pasta para ver se alguma linha servia àquele livro. Não serviu do jeito que imaginava. Na pandemia releu o conjunto e decidiu que o maço pedia livro próprio. O resultado é um romance epistolar: as cartas de 1964 e 1965, com o autor mais velho situando o Rio, a faculdade e o começo da vida artística em volta delas. Ele disse, em entrevista, que o garoto das cartas o comoveu e também o envergonhou, porque namorava duas colegas ao mesmo tempo.
O que o leitor encontra, e o que não encontra
Encontra um Rio de 1964 e 1965 visto por um estudante de vinte anos, não pelo cronista que depois assinaria coluna na Globo. O país daqueles meses entra como cenário das cartas, não como tratado. A noite de autógrafos do lançamento foi em 8 de outubro de 2024, no Piano Bar do Blue Note Rio, em Copacabana. Isso fixa o livro no calendário dos oitenta anos dele, ao lado do musical de Tom Jobim, mas a leitura não depende do evento.
Não é uma autobiografia completa. Para a vida inteira, o livro é De cu pra lua. Não é memória da MPB. Para isso, o livro é Noites tropicais. Corações de papel é estreito de propósito: um amor de juventude, duas vozes no tempo, a do rapaz que escreveu e a do homem que comentou o que o rapaz escreveu. Quem espera discografia ou o dia a dia de gravadora vai sair no capítulo errado. Em entrevista na época do lançamento, ele situou o garoto das cartas num Brasil de transformação violenta e lembrou que, antes da vida artística, o encontro com Ana Luísa foi na faculdade, no período do design.
Como o livro se compra
A edição de trabalho é a capa comum da Record, 160 páginas, também disponível em e-book. O item certo leva o nome do autor e o da Record, não uma coletânea de cartas de outro Nelson. A ficha corresponde à edição de novembro de 2024. O lançamento no Blue Note foi noite de autógrafo, não uma condição para ler o livro depois. A Record trata o volume como romance epistolar. As cartas são de um namoro real, e o comentário em volta é do autor sessenta anos mais velho. Essa distância é o livro.




