Vale tudo é a biografia de Tim Maia escrita por quem sentou com ele, não por um biógrafo contratado depois da morte. Nelson Motta era amigo do cantor desde os anos 1970. O livro saiu pela Objetiva. A edição que a Amazon mantém à venda é a de 15 de outubro de 2014, com 392 páginas e ISBN 9788539006397. A data da primeira tiragem oscila nas fichas, entre o meio e o fim daquela década. O que não oscila é o objeto: a vida de Tim contada de perto, com o grito de estúdio que a capa ainda usa como senha, mais grave, mais agudo, mais eco, mais retorno, mais tudo.
Tim se definia, nas próprias entrevistas, como preto, gordo e cafajeste. Motta não limpa essa frase para entregar um santo da soul music. O livro segue o rei do samba-soul pelo humor, pelo excesso e pelo disco, e abre com o último encontro entre os dois. A Enciclopédia Itaú Cultural anota a tiragem que passou de 300 mil exemplares e o tom afetuoso, sem transformar afeto em omissão. Quando o autor falou da obra em Paraty, disse que deixou de fora cifras de processos que ainda corriam, a pedido do advogado. No resto, entrou o que ele viu, ouviu e levantou nas entrevistas em que Tim contava a própria vida para rádio, jornal e televisão.
Do livro para o palco e para o cinema
Em 2011, o musical Tim Maia, Vale tudo, com roteiro a partir dessa biografia, virou o grande fenômeno de bilheteria teatral do ano. A adaptação para o cinema veio depois. A edição de 2014 da Objetiva já conversa com o filme: a capa informa que o livro inspirou a película. Quem compra hoje pode estar atrás da história do cantor, da origem do musical ou das duas coisas. O texto não é o programa do espetáculo. É a narrativa anterior, a que o palco e a tela usaram como matéria.
O leitor de biografia musical encontra aqui um recorte diferente de Noites tropicais. Naquele, Motta é o eixo e a MPB é o cenário. Neste, Tim é o eixo e Motta é a testemunha com acesso. Os dois livros se cruzam porque os dois homens se cruzaram, não porque sejam volumes da mesma série.
O que dá para esperar da leitura
Dá para esperar samba-soul, estúdio, excesso e amizade, com nome de música e de briga. Não dá para esperar processo judicial em detalhe de cifra, porque o próprio autor disse que esse pedaço ficou de fora. Também não dá para esperar a discografia comentada faixa a faixa, como um guia de colecionador. O público é quem já ouve Tim Maia e quer a pessoa, e quem viu o musical ou o filme e quer a fonte. A capa comum da Objetiva, com 392 páginas, é o item exato. Formatos digitais existem à parte e não mudam a obra. O que muda, para o leitor de 2024 em diante, é a capa que já avisa a ponte com o filme. O texto continua sendo o de quem conheceu Tim antes do musical lotar teatro e antes da tela. A frase de estúdio segue na orelha porque era assim que o cantor pedia som: mais grave, mais agudo, mais tudo.




