Noites tropicais é o livro em que Nelson Motta conta a música brasileira de dentro da sala, não da arquibancada. A primeira edição saiu pela Objetiva em 2000. O recorte vai de 1958 a 1992: bossa nova, jovem guarda, festivais, tropicalismo, MPB, discoteca e rock. Quem compra a edição que circula agora leva outra camada. Em 15 de novembro de 2022 a HarperCollins publicou a versão revista e ampliada, com 512 páginas e ISBN 9786555114232. O autor reviu o texto, cortou, acrescentou e escreveu três capítulos novos que começam onde o original parava.
O leitor dessa obra não está atrás de um manual de harmonia nem de uma lista de discos. Está atrás do relato de quem foi letrista, produtor, diretor artístico e crítico no mesmo período que descreve. A sobrecapa antiga já avisava o tom: gênios e pilantras, roqueiros e sambistas, uma história sem censura entre sexo, droga e canção. Nelson Rodrigues, na frase que a edição comemorativa ainda carrega, chamou Nelsinho de homem dos sete instrumentos, e disse que ele tocava bem todos eles. A frase serve de mapa. O livro mistura memória pessoal e crônica de época sem pedir licença para separar as duas coisas.
O que a edição revista muda para quem já leu
Duas décadas separam a Objetiva da HarperCollins. A agência literária que representa os direitos registra mais de 80 mil exemplares da obra. Junto com a biografia de Tim Maia, o volume entrou na conta pública de centenas de milhares de cópias. A edição nova não é um fac-símile. Quem leu o livro no começo dos anos 2000 encontra cortes, acréscimos e três capítulos que avançam além de 1992, o ponto em que a primeira narrativa fechava.
O miolo continua sendo jornalismo cultural de quem participou. Bossa, festival, tropicalismo e a noite da disco aparecem com nome, briga e circunstância. Não é um dicionário de MPB. É a versão de um protagonista que também foi testemunha, e que assume os dois papéis sem posar de historiador de fora.
Para quem o livro serve
Serve a quem quer entender como a canção brasileira saiu da bossa e chegou ao rock dos anos 1980 e ao começo dos 1990, com boate, gravadora e redação no mesmo parágrafo. Serve também a quem já conhece Como uma onda ou Dancin' Days e quer o entorno: a casa no Joá, a Frenetic Dancing Days no Shopping da Gávea, a produção de Elis Regina e de Marisa Monte. Não substitui uma biografia de Tom Jobim, de Tim Maia ou de Caetano Veloso. Esses nomes entram quando cruzam a vida do autor.
A edição da HarperCollins é a rota atual em português, em capa comum. O texto antigo da Objetiva, de cerca de 466 páginas, ainda aparece em sebos. As duas não são livros diferentes: são a mesma obra, uma delas reescrita pelo autor. A ficha da primeira Objetiva, ainda encontrada em catálogos de leitores, traz ISBN 9788573022926 e cerca de 466 páginas. A comemorativa da HarperCollins não troca título nem autor. Alonga o relato para 512 páginas e empurra a história para além do ponto em que o livro de 2000 fechava. Quem compara as duas edições está diante da mesma obra reescrita, não de um volume novo com outro nome.




