De cu pra lua é o livro em que Nelson Motta conta a própria vida chamando o protagonista de Nelsinho. A Estação Brasil lançou a primeira edição em 26 de outubro de 2020, ISBN 9786557330043. O título brinca com a sorte, e ele admite que a sorte guiou boa parte do caminho. A Folha, na véspera dos 76 anos, descreveu quase 500 páginas de prosa em terceira pessoa. O recurso não é um capricho de forma. Ele explicou que, tratando Nelsinho como personagem, podia sacanear, criticar e até elogiar com uma distância que a primeira pessoa não dava. Chamou isso de esquizofrenia voluntária e temporária.
O livro chega depois de biografias alheias, entre elas a de Tim Maia e a de Glauber Rocha. Aqui o biografado é ele. O garoto paulistano de 1944 muda para o Rio em 1950 e cresce na cidade que muita gente jura ser a dele de nascença. A adolescência pega os anos 1950 do Rio, o mesmo chão que Ruy Castro e Zuenir Ventura também transformaram em crônica. Design na faculdade, coluna, festival, disco, boate, Nova York e os livros entram como capítulos de uma vida, não como currículo.
O que separa estas memórias de Noites tropicais
Noites tropicais organiza a música. De cu pra lua organiza a pessoa, e a música aparece quando ela decide a pessoa. A terceira pessoa muda o pacto com o leitor. Dá para rir do rapaz sem o autor pedir desconto. Dá também para desconfiar do charme, porque o próprio texto avisa que Nelsinho pode ser sacaneado. Quem leu a biografia de Tim e quer o outro lado da mesa encontra aqui o amigo que escreveu aquele livro, com as falhas que ele aceita mostrar.
A pasta azul das cartas para Ana Luísa quase entrou neste volume. Ele abriu as cartas enquanto escrevia e acabou guardando o maço para outro livro, Corações de papel, quatro anos depois. As duas obras se conversam sem se repetir. Uma é a vida. A outra é um amor de 1964 contado pelas cartas.
Para quem vale a leitura
Vale para quem quer o cronista, o letrista e o produtor no mesmo fôlego, com origem, cidade e ofício. Não substitui a biografia de Tim Maia nem o panorama de Noites tropicais. A edição da Estação Brasil, de 2020, é a primeira e a que segue à venda em capa comum, com e-book ao lado. O que identifica o item é o subtítulo: dramas, comédias e mistérios de um rapaz de sorte. No próprio livro, segundo o relato publicado pelo Itaú Cultural, ele aponta fraquezas musicais do rapaz: desafinado, sem noção de ritmo, ruim de ouvido. O detalhe importa porque a fama pública é a de letrista e produtor, não a de instrumentista virtuose. A sorte do título convive com esse limite, declarado por ele. A Folha anotou a escolha da terceira pessoa justamente para que o elogio e a crítica coubessem no mesmo capítulo. O subtítulo entrega o gênero: drama, comédia e mistério, não só lista de cargos.




