Contexto e proposta de Corpo presente
Corpo presente foi o primeiro romance de João Paulo Cuenca, publicado pela Planeta em 2003 e reeditado pela Companhia das Letras numa edição comemorativa. O livro já nasce fragmentado. Capítulos curtos, numerados como primos, trocam função, gênero, classe e até o papel de quem narra. Alberto e Carmen circulam por um Rio de noites longas, sexo, cinismo e busca de um sentimento que o próprio texto trata como perdido. Não há o caso policial da Lapa nem o Tóquio do Amores Expressos: há a oficina onde a voz do autor se forma.
A proposta pública da reedição é clara. A Granta já tinha apontado Cuenca entre os jovens romancistas brasileiros quando a Companhia recolheu o livro de estreia. O protagonista vive um presente contínuo, lambuza-se com o que a cidade oferece e trata a escrita como modo de enfrentar a vida. Bernardo Carvalho, na orelha da edição, funciona menos como elogio e mais como chave de leitura: o jogo de identidades não tem vencedor, só regra rígida.
O romance divide leitores. Há quem veja potência formal e um começo de carreira sem pedido de licença. Há quem, relendo anos depois, aponte o olhar masculino, a sexualização e um vocabulário que envelheceu mal. Isso faz parte da recepção documentada e não precisa ser escondido nem transformado em espetáculo. O livro existe como estreia de 2003, reeditada em 2013, e deve ser lido nessa data: um jovem autor carioca testando fragmento, corpo e narração, antes das listas internacionais e antes do óbito alheio no próprio CPF.
Serve a quem quer o começo da bibliografia, a quem estuda a prosa urbana dos anos 2000 e a quem recusa começar pelo livro mais famoso. Tem pouco mais de cem páginas na edição digital da Companhia. Não substitui Descobri que estava morto nem o romance de Tóquio. Antecede os dois. Sem este volume, a carreira parece nascer pronta no prêmio; com ele, vê-se o laboratório, inclusive o que a crítica posterior passou a contestar.
Na prática, Corpo presente é o título de formação. A Planeta lançou; a Companhia das Letras recolocou no catálogo. Quem monta a leitura em ordem cronológica começa aqui, segue para O dia Mastroianni e só então chega ao caso da identidade. Quem lê só o livro de 2016 perde o primeiro movimento, o mais experimental e o mais exposto da juventude literária do autor.




