Contexto e proposta de O único final feliz para uma história de amor é um acidente
O único final feliz para uma história de amor é um acidente leva o leitor a um Tóquio próximo do presente e o deixa sob vigilância. Publicado pela Companhia das Letras em 2010, o romance nasceu do projeto Amores Expressos, que mandou autores brasileiros a cidades do mundo. João Paulo Cuenca coube Tóquio. O resultado não é diário de viagem nem guia de bairro: é um livro de desejo, espionagem familiar e cultura pop japonesa, com narradores que se alternam até uma boneca inflável entrar na conversa.
No centro está Shunsuke Okuda, funcionário de multinacional e conquistador que inventa uma identidade para cada namorada nos bares de Kabukicho. A rotina quebra quando aparece Iulana, garçonete por quem ele se obceca. Ela mal fala japonês e ama uma dançarina. Nada disso impede o casal de mergulhar numa relação torta. Por cima de tudo paira o pai, sr. Okuda, poeta ancião que grava os passos do filho e parece disposto a destruir qualquer chance de felicidade. O voyeurismo deixa de ser metáfora e vira sistema.
A estrutura é caleidoscópica. Quadrinhos, seriados, Shinjuku, Shibuya, Ueno e Akihabara entram não como cartão-postal, mas como máquina de olhar. O título promete acidente; a prosa entrega uma história de amor perturbada, em que a metrópole, a perversão e a vigilância pesam mais do que o encontro romântico. Quem compra pelo título e espera um lírico curto pode se frustrar. Quem aceita o amargo encontra um dos livros mais traduzidos do autor: Espanha, Alemanha, França, Estados Unidos, Finlândia e Romênia.
O volume brasileiro tem cerca de 152 páginas. É o romance certo para quem quer Cuenca fora do Rio, para quem interessa o Amores Expressos e para quem lê ficção contemporânea com estômago para humor negro e desejo sem redenção. Não é o livro do caso da Lapa. É o livro em que o escritor testa o que acontece quando a identidade falsa deixa de ser jogo de namoro e vira herança paterna.
Na prateleira da Companhia das Letras, convive com outros Amores Expressos, como o Lisboa de Luiz Ruffato. A comparação serve só de mapa editorial: cada autor voltou com um romance distinto. O de Cuenca ficou como o Tóquio da série, o mais marcado por vigilância e por uma ideia cruel de final feliz. Se a pergunta for por onde ver o autor internacionalizado antes do prêmio da Biblioteca Nacional, a resposta é este título.




