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O Dia Mastroianni

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Segundo romance de J.P. Cuenca, reeditado pela Record, sobre 24 horas de flânerie, festas e clichês no Rio dos anos 1990.

Contexto e proposta de O Dia Mastroianni

O Dia Mastroianni acompanha vinte e quatro horas de Pedro Cassavas e Tomás Anselmo pelo Rio. Publicado pela Agir em 2007 e reeditado pela Record em 2022, o segundo romance de J.P. Cuenca retrata e ao mesmo tempo debocha dos clichês de uma geração de classe média cheia de informação, pretensão artística e medo do lugar-comum. Os dois flanam, bebem, encontram mulheres, aparecem em festas para as quais não foram convidados e gastam o dia como quem testa se ainda existe alguma originalidade possível.

A Record recoloca o livro depois de Qualquer lugar menos agora e trata a trama como indefinida de propósito. Paulo Roberto Pires, na orelha da nova edição, nota a distância tanto do Brasil “profundo” quanto da literatura urbana burguesa à qual o próprio Cuenca se ligara em Corpo presente. Fabrício Carpinejar chamou o volume de leve, engraçado e cítrico. Bolívar Torres falou em romance da não geração. Adriano Schwartz, na Folha, viu o autor superar o desafio do segundo livro.

Metalinguagem aqui não é enfeite. A narrativa questiona a si mesma enquanto os personagens temem o clichê e não conseguem sair dele. Marcello Mastroianni no título funciona como farol de um cinema de charme e cansaço, não como biografia do ator. O Rio do livro é palco de deriva, não de inquérito. Quem vier do romance da Lapa pode estranhar a ausência de cadáver e de prêmio: este é outro momento da carreira, anterior à Granta e anterior ao óbito administrativo.

A edição da Record tem 160 páginas, com ilustrações de Christiano Menezes. É o livro certo para quem quer o Cuenca mundano, irônico, ainda perto da juventude dos anos 1990. Não é o mais traduzido nem o mais premiado. É o que mostra o autor lidando com o segundo golpe, aquele em que a estreia já existia e a lista estrangeira ainda não tinha chegado. Houve edições em Portugal, Itália e Alemanha do texto original; a Record devolve o título ao circuito brasileiro contemporâneo.

Para montar a prateleira, este volume fica entre a estreia fragmentária e o Tóquio de 2010. Sem ele, a bibliografia salta de Corpo presente para o Amores Expressos e perde o dia inteiro de flânerie carioca. Com ele, vê-se o humor, o tédio de classe e a teimosia de escrever um romance urbano sem fingir raiz. Quem busca só o caso da identidade pode pular; quem quer a carreira em sequência não deve.

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