O nove de maio de 2000 é um dia qualquer em São Paulo. Não há um protagonista que atravesse a cidade: há 69 episódios, cada um com registro próprio — prosa, poesia, discurso publicitário, música, teatro. Eles eram muitos cavalos, lançado em 2001 pela Boitempo, é o livro que tirou Luiz Ruffato da redação e o colocou no centro da ficção brasileira contemporânea.
O título vem do poema “Dos Cavalos da Inconfidência”, de Cecília Meireles. Ruffato chamou o volume de “instalação literária”. A aposta é formal e política ao mesmo tempo: a metrópole não cabe num enredo linear, então o livro se parte. Quem espera um romance de personagem único se perde; quem aceita o atropelo encontra o tecido da cidade — solidariedade e frieza, anônimos que aparecem e somem.
O que o livro faz com São Paulo
A cidade que acolheu o mineiro de Cataguases vira matéria, não cartão-postal. Os fragmentos pegam gente em trânsito, no trabalho, na fé, no ódio doméstico, na calçada. A formação jornalística aparece no corte rápido; a ousadia está na diagramação e na troca de gêneros. A crítica da Veja falou em espiral de sotaques e classes; o jornal O Globo pôs o romance entre os dez melhores livros de ficção da década.
Não é um guia da cidade. É um retrato de quem a cidade esquece enquanto se move. Por isso o livro continua sendo lido mais de vinte anos depois: o dia 9 de maio de 2000 envelheceu menos do que se espera de um “experimentalismo” de época.
Prêmios, edições e para quem serve
Na estreia, o romance levou o Troféu APCA e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional. Foi traduzido e publicado em Portugal, França, Itália, Alemanha, Colômbia e Argentina. A Companhia das Letras relançou o texto na coleção econômica (ISBN 978-85-359-2321-6, 136 páginas). Há e-book Kindle. Também figura como leitura obrigatória do vestibular da UNIOESTE.
- Quem quer o Ruffato da metrópole, não o do interior mineiro.
- Quem tolera (ou procura) romance fragmentado, sem herói único.
- Quem lê para vestibular ou para entender a ficção brasileira dos anos 2000.
- Quem já conhece o ciclo Inferno provisório e quer o livro que veio no meio do caminho.
Como ler sem se perder
O melhor conselho ainda é o da resenha antiga: ir num fôlego só, ou em blocos curtos, sem tentar “montar o quebra-cabeça” de um enredo que o autor recusou. Cada episódio tem ritmo próprio. A unidade é o dia e a cidade, não a fábula. Quem trava nos primeiros fragmentos costuma achar o livro hostil; quem segue vê o método — a forma imita o trânsito, a interrupção, o excesso de vozes.
Não confundir com os volumes de Inferno provisório, que cobrem décadas da classe operária a partir de Cataguases. Aqui o palco é São Paulo num único dia. A edição da Companhia das Letras é a rota mais comum nas livrarias e na Amazon Brasil. Capa comum e Kindle apontam para o mesmo texto; não é preciso caçar a primeira edição da Boitempo para a leitura.
Há quem leia o livro como retrato sociológico e se irrite com a forma. Há quem leia só a forma e perca o chão social. Os dois lados estão no mesmo objeto: a cidade que esquece gente, escrita de um jeito que também esquece o conforto do romance tradicional. Se a primeira dezena de episódios parecer ruído, vale seguir — o ruído é o método, não um defeito de revisão.




