Serginho mora em Cataguases, atravessada pelo rio Pomba. O casamento deu errado, o emprego some, a vontade de ficar também. Alguém aponta a saída mágica: Portugal, onde um trabalhador denodado recompõe a vida e volta com um pé-de-meia. Estive em Lisboa e lembrei de você, publicado em 2009 pela Companhia das Letras, é o romance em que Luiz Ruffato leva o mineiro da Zona da Mata para o outro lado do Atlântico — e recusa o milagre.
O livro nasceu do projeto Amores Expressos: escritores brasileiros viajaram a cidades do mundo para escrever sobre amor. Ruffato foi a Lisboa. O resultado não é crônica de turista. É um romance curto (88 páginas na edição de 2009) em que a fala do narrador vai se contaminando de idiotismos portugueses à medida que os anos passam. A crítica da editora chamou isso de milagre narrativo: densidade com velocidade, interior de Minas colado à língua de Lisboa.
O que a história põe em jogo
Na primeira parte, ainda no Brasil, a vida de Serginho desanda — casamento depois de gravidez indesejada, emprego, ânimo. A segunda parte é a travessia e o cotidiano do imigrante: trabalho, espera, a lenda do dinheiro fácil se desfazendo. Não é um romance de redenção turística. Cataguases continua no corpo de quem partiu; Lisboa não apaga a cidade natal, só muda o vocabulário da precariedade.
Quem conhece o restante da obra reconhece o chão: o mesmo interior mineiro de Inferno provisório, agora visto de quem tentou sair. A diferença é o palco português e o recorte amoroso que o projeto pedia — amor aqui é menos paixão de capa do que apego, falha e distância.
Para quem este livro serve
- Quem quer um Ruffato curto, de um fôlego, depois do volume grosso de Inferno provisório.
- Quem lê sobre imigração brasileira em Portugal sem reportagem nem autoajuda.
- Quem se interessa pela coleção Amores Expressos e quer o volume de Lisboa.
- Quem já viveu (ou tem família) entre Minas e a Europa e quer ficção, não depoimento.
Edição e leitura
A primeira edição brasileira é da Companhia das Letras, 9 de setembro de 2009, ISBN 978-85-359-1525-9. Há e-book. Em Portugal saiu como Estive em Lisboa e lembrei-me de ti (Quetzal). A edição brasileira em capa comum circula na Amazon; quando o estoque físico oscila, o Kindle cobre o mesmo texto.
Não confundir com os contos de A cidade dorme nem com Armadilhas: aqui há um narrador e um arco, ainda que veloz. Também não é guia de Lisboa. A cidade entra pela fala de quem chegou para trabalhar, não para visitar. Depois deste romance, quem quiser o Ruffato da fábrica fica no ciclo operário; quem quiser o da metrópole volta a Eles eram muitos cavalos.
A língua é o dispositivo visível: o português de Cataguases vai absorvendo marcas de Portugal sem virar pastiche. Quem já ouviu imigrante brasileiro em Lisboa reconhece o deslizamento. Quem nunca ouviu ainda consegue seguir — o livro não exige glossário. Exige atenção ao que a fala trai: esperança, cansaço, o recuo da lenda do dinheiro fácil.




