Antes de ser volume único, Inferno provisório foi um projeto de vinte anos: cinco romances publicados pela Record entre 2005 e 2011 para contar, em ficção, a história do proletariado brasileiro. Em 2016 a Companhia das Letras reuniu o ciclo numa edição definitiva de 408 páginas. É o livro em que Ruffato deixa de ser “o autor de um dia em São Paulo” e aparece como o romancista da classe operária.
O núcleo já estava nos contos de Histórias de Remorsos e Rancores e (os sobreviventes), depois reescritos. Cada volume cobre um recorte: o êxodo rural dos anos 1950-60; a fixação do primeiro proletariado numa cidade industrial pequena; o choque entre imaginário rural e urbano nos anos 1970-80; as mudanças de comportamento dos anos 1980-90; o começo do século XXI. O palco volta, de novo e de novo, à Zona da Mata mineira e às rotas que saem dela.
Os cinco volumes, sem mistério de catálogo
Mamma, son tanto felice (2005) abre com o êxodo. O mundo inimigo (2005) entra na cidade pequena industrial. Vista parcial da noite (2006) descreve o embate entre campo e urbe. O livro das impossibilidades (2008) registra os anos 1980-90. Domingos sem Deus (2011) fecha o arco e levou o Prêmio Casa de las Américas em 2013. Não é necessário comprar os cinco tomos antigos da Record se a edição em volume único estiver à mão: é o texto consolidado.
Ruffato descreveu o conjunto como tentativa de dar a palavra a quem construiu fábrica e cidade sem entrar nas páginas da ficção senão como tipo ou piedade. A forma acompanha: calidoscópio de vozes, não um herói operário de cartilha. Quem procura tese sociológica encontra romance; quem procura folhetim encontra corte, fala, beco, turno.
Para quem este livro serve
- Quem quer o projeto central da carreira, não só o livro mais famoso.
- Quem lê literatura brasileira contemporânea com interesse em classe, êxodo e interior industrial.
- Quem já leu Eles eram muitos cavalos e sente falta do chão mineiro.
- Quem estuda o romance social depois de Graciliano sem esperar o mesmo estilo seco.
Edição e o que não confundir
A edição econômica da Companhia das Letras (ISBN 978-85-359-2793-1) é a rota pública mais estável. Há e-book. Os volumes avulsos da Record continuam em sebos e estoques antigos; para a primeira leitura, o volume único evita repetir o mesmo ciclo em cinco compras. Não é o mesmo livro que Eles eram muitos cavalos nem que os contos de Armadilhas: aqui o tempo é de décadas, não de um dia nem de dezoito histórias soltas.
Há traduções parciais do ciclo para o alemão (Michael Kegler) e o espanhol. O leitor brasileiro encontra o texto completo em português na edição de 2016. É um livro longo. Os capítulos e as mudanças de voz permitem pausar; a unidade é o projeto, não um único clímax.
Uma rota prática: ler o volume único na ordem publicada, sem pular para o tomo mais recente. O êxodo dos anos 1950 explica o operário da cidade pequena; a cidade pequena explica o choque com o urbano; o presente de Domingos sem Deus pesa mais quando os quatro livros anteriores já estão na cabeça. Não é obrigação. É o desenho que o autor passou duas décadas afinando.




