Em Cataguases, o filho do pipoqueiro e da lavadeira passou pelo torno do Senai e pelo chão da fábrica têxtil antes de qualquer editora. Luiz Ruffato virou o romancista que fez da classe trabalhadora matéria de literatura contemporânea — e, em 2001, comprimiu um único dia de São Paulo num livro que a crítica ainda trata como marco.
Quem chega pelo nome quase sempre busca Eles eram muitos cavalos: fragmentos de 9 de maio de 2000, prosa misturada com poesia, publicidade e teatro. O restante da obra, da pentalogia Inferno provisório aos contos de Armadilhas, continua no mesmo chão — gente anônima, êxodo, fábrica, cidade grande.
Quem é Luiz Ruffato
Luiz Fernando Ruffato de Souza nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 4 de fevereiro de 1961. É romancista, contista, poeta, cronista e, até 2003, jornalista. Na literatura brasileira do século XXI, poucos nomes sustentam ao mesmo tempo vestibular, tradução internacional e um projeto de longo prazo sobre o proletariado.
O site oficial resume o arco sem floreio: livros premiados no Brasil (Machado de Assis, APCA, Jabuti) e fora (Casa de las Américas, Escritor Galego Universal, Hermann Hesse), residência na Universidade de Berkeley em 2012 e obra publicada em quinze países. A editora de referência hoje é a Companhia das Letras. O que a ficha não conta é o caminho até a prateleira: ofício braçal, redação, depois a decisão de viver só da escrita.
De Cataguases ao jornalismo em São Paulo
A casa não tinha hábito de leitura. O pai, pipoqueiro, vinha de imigrantes portugueses; a mãe, lavadeira, de origem norte-italiana. Ruffato costuma lembrar que o único livro em casa era a Bíblia. Formou-se torneiro mecânico pelo Senai, trabalhou na indústria têxtil, foi atendente de armarinho e pipoqueiro. Mudou-se para Juiz de Fora, estudou Comunicação Social na Universidade Federal de Juiz de Fora e passou por redações mineiras antes de fixar-se em São Paulo, em 1990.
Na capital, o jornalismo pagou o aluguel enquanto a literatura ganhava forma. Em 2003 ele largou a redação para escrever em tempo integral — gesto raro no Brasil, e só possível depois de Eles eram muitos cavalos ter encontrado público e crítica. A biografia de fábrica não vira propaganda de superação: entra na prosa como matéria conhecida de perto, não como enfeite.
- Cataguases, 1961: infância de família pobre, ofícios de venda e chão de fábrica.
- Juiz de Fora: torno mecânico de dia, Comunicação Social na UFJF.
- São Paulo, 1990: jornalismo em jornais da cidade.
- 2003: abandona a carreira de jornalista para viver como escritor.
Eles eram muitos cavalos e o salto de 2001
O primeiro romance saiu pela Boitempo em 2001 e levou o Troféu APCA e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, o galardão que leva o nome de Machado de Assis. São 69 episódios de um dia qualquer em São Paulo. O título cita o poema “Dos Cavalos da Inconfidência”, de Cecília Meireles. Ruffato chamou o livro de “instalação literária”: não há um herói que atravessa a metrópole; há vozes que se atropelam e desaparecem.
Antes disso, havia poesia em O homem que tece (1979) e os volumes de contos Histórias de Remorsos e Rancores (1998) e (os sobreviventes) (2000), este último com menção especial do Prêmio Casa de las Américas. Os dois livros de prosa foram depois reescritos e absorvidos por Inferno provisório. Quem lê só o romance de 2001 pega o estouro; quem lê o conjunto vê o método se formando no beco do Zé Pinto, em Cataguases.
Inferno provisório e o chão da classe operária
Entre 2005 e 2011, Ruffato publicou cinco volumes pela Record — Mamma, son tanto felice, O mundo inimigo, Vista parcial da noite, O livro das impossibilidades e Domingos sem Deus — para ficcionalizar a história do operariado brasileiro da década de 1950 ao começo do século XXI. Em 2016 a Companhia das Letras reuniu o ciclo em volume único. O próprio autor descreveu cada tomo como um recorte: êxodo rural, primeiro proletariado de cidade pequena, choque entre imaginários rural e urbano, mudanças dos anos 1980-90, chegada ao presente.
A Enciclopédia Itaú Cultural liga esse projeto à tradição do romance social brasileiro, de Oswald de Andrade a Graciliano Ramos, sem copiar o tom de nenhum dos dois. Ruffato recusa o paternalismo e o cartão-postal: quer a fala, o turno, o ônibus, o beco. Domingos sem Deus levou o Prêmio Casa de las Américas em 2013. Fora do ciclo, Estive em Lisboa e lembrei de você (2009) saiu do projeto Amores Expressos: um mineiro de Cataguases tenta a vida em Portugal e encontra o impasse do imigrante.
Prêmios, tradução e canais públicos
Além dos prêmios de 2001, a obra recebeu o Jabuti (confirmado em 2015 com o infantil A história verdadeira do sapo Luiz), o título de Escritor Galego Universal (2015) e o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha, em 2016. Há traduções em alemão, espanhol, francês, italiano e edições em Portugal. O jornal O Globo listou Eles eram muitos cavalos entre os dez melhores livros de ficção da década.
- Site oficial: luizruffato.com, com a bibliografia e o lançamento de Armadilhas.
- Instagram @luizruffato e página no Facebook administrada com autorização do autor.
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Em 2026 a Companhia das Letras lançou Armadilhas, dezoito contos de vidas anônimas — Minas, Zurique, Macau — no mesmo território de perdas, memória e trabalho. Quem quer o retrato da metrópole começa por Eles eram muitos cavalos. Quem quer o arco de décadas da classe operária vai a Inferno provisório. Quem quer o imigrante, a Lisboa de Serginho. Quem quer o Ruffato de agora, os contos novos.





