Contexto e proposta de Em Nome da Razão
Em Nome da Razão nasceu de uma visita de Helvécio Ratton ao Hospital Colônia de Barbacena, em 1979. Na época estudante de psicologia, ele conheceu o hospital com um grupo de estudantes e profissionais de saúde e decidiu registrar as condições dos internos. Com autorização da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, reuniu uma equipe de quatro pessoas e realizou o documentário com recursos do próprio grupo. O filme tem 24 minutos e foi rodado em preto e branco.
O que a câmera encontra é uma instituição que trata pessoas como casos sem voz: corredores, alas, funcionários e internos aparecem num cotidiano marcado pela falta de perspectiva. Ratton não constrói o filme como denúncia panfletária; ele deixa que a rotina do hospital revele o que o lugar faz com quem está ali. A duração enxuta dá ao espectador tempo para olhar, e o desconforto se torna parte da experiência.
O documentário foi exibido em um congresso de psiquiatria em Minas Gerais, com a presença do psiquiatra italiano Franco Basaglia, e entrou no debate que questionava o modelo asilar brasileiro. Recebeu o Prix du Public no Festival de Lille, na França, o prêmio de melhor documentário nas Jornadas do Curta-metragem de Salvador e o Margarida de Prata da CNBB em 1980.
Quatro décadas depois, Em Nome da Razão continua sendo exibido e estudado. O filme faz parte do acervo do Museu da Loucura, em Barbacena, onde ocupa um espaço dedicado a Helvécio Ratton e uma sala escura que reproduz o som da obra. Para quem se interessa por saúde mental, documentário brasileiro ou pela história das instituições, o filme é uma porta de entrada para entender como o cinema participou da luta antimanicomial. A obra não substitui o debate político, mas dá rosto e tempo a uma realidade que muitos preferiam não ver.





