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Helvécio Ratton

Nascimento: 1949 Divinópolis, Minas Gerais
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Cineasta mineiro de Divinópolis, dirigiu Em Nome da Razão, Menino Maluquinho e Batismo de Sangue. Fundou a Quimera Filmes com Simone Matos.

Em 1979, Helvécio Ratton entrou no Hospital Colônia de Barbacena com uma equipe de quatro pessoas e transformou o que viu em Em Nome da Razão, documentário de 24 minutos que se tornou uma referência da luta antimanicomial no Brasil. O filme nasceu de uma visita ao hospital com estudantes e profissionais de saúde, foi financiado pela própria equipe e exibido em um congresso de psiquiatria em Minas Gerais. É por esse tipo de escolha — cinema que encara instituições, literatura e memória — que sua filmografia reúne documentários, filmes infantis e adaptações literárias que continuam em circulação.

Nascido em Divinópolis, Minas Gerais, em 14 de maio de 1949, Helvécio Luis de Amorim Ratton construiu uma carreira que atravessa documentário, ficção, cinema infantojuvenil e adaptação literária. Dirigiu A Dança dos Bonecos, Menino Maluquinho — O Filme, Amor & Cia., Batismo de Sangue e O Lodo, entre outros títulos, e desde 1989 divide a produção de seus filmes com a Quimera Filmes, produtora que fundou ao lado de Simone Magalhães Matos. A variedade temática não é dispersão: cada filme parece partir de uma pergunta sobre como pessoas comuns atravessam instituições, desigualdades e mudanças históricas.

Do exílio no Chile ao primeiro filme em Barbacena

Antes de dirigir, Helvécio militou contra a ditadura militar. No fim dos anos 1960, participou do movimento estudantil e da luta armada; em 1970, exilou-se no Chile, onde começou a trabalhar na Chile Films, em funções que iam da cenografia à produção executiva e ao roteiro. O golpe de 1973 o obrigou a voltar ao Brasil. Preso no Rio de Janeiro, passou quarenta dias no DOI-Codi antes de retornar a Belo Horizonte.

Na capital mineira, formou-se em psicologia pela PUC Minas e trabalhou com publicidade enquanto se aproximava do cinema. Integrou o Grupo Novo de Cinema, dirigiu o curta de animação Criação (1977) com Fausto Hugo Prats e, em 1979, realizou Em Nome da Razão. O documentário mostrava corredores, instalações e a rotina do Hospital Colônia de Barbacena, então um dos maiores hospitais psiquiátricos do país. A exibição em um congresso de psiquiatria, com a presença do psiquiatra italiano Franco Basaglia, colocou o filme no centro do debate que questionava o modelo asilar brasileiro.

Depois vieram João Rosa (1980), documentário sobre João Guimarães Rosa a partir de entrevistas com Manuelzão, e A Dança dos Bonecos (1986), primeiro longa-metragem de ficção do diretor. O roteiro nasceu de uma viagem a Biribiri, distrito de Diamantina, e o filme combinou atores e bonecos criados por Álvaro Apocalypse e pelo grupo Giramundo. Essa mistura de observação, artesanato e comunicação com o público se tornaria uma marca de sua filmografia.

Menino Maluquinho e a infância como ponto de encontro

Menino Maluquinho — O Filme, de 1995, levou ao cinema o personagem de Ziraldo. Com 91 minutos, o longa foi produzido pelo Grupo Novo de Cinema e TV em coprodução com a Quimera Filmes e teve Samuel Costa no papel principal, ao lado de Patrícia Pillar, Luiz Carlos Arutim, Roberto Bomtempo e Edyr Duqui. A história acompanha uma infância feliz, mas o filme também reorganiza lembranças do próprio diretor: Helvécio chegou a Belo Horizonte aos sete anos, e parte das brincadeiras do protagonista se passa na cidade dos anos 1960.

O resultado foi além do circuito infantojuvenil. O filme recebeu o prêmio Margarida de Prata da CNBB em 1995, o Golden Cairo de melhor filme no 6º Festival Internacional de Filmes para Crianças do Cairo e o prêmio especial do júri no Festival Ragazzi Bellinzona, na Suíça. Também levou o prêmio do público no Festival Internacional de Cinema para Crianças e Jovens de Montevidéu e foi eleito melhor filme na IV Mostra do Cinema Nacional de Cuiabá. O longa consolidou a passagem de Ratton pelo cinema para crianças, que voltaria a aparecer em Pequenas Histórias e O Segredo dos Diamantes.

Batismo de Sangue e a memória da ditadura

Se Menino Maluquinho olhava para a infância, Batismo de Sangue retomou a experiência política do diretor. O longa adapta o livro homônimo de Frei Betto, publicado em 1982, sobre a participação de frades dominicanos na resistência clandestina à ditadura militar. Helvécio dirigiu e produziu o filme e escreveu o roteiro com Dani Patarra. No elenco estão Caio Blat, Daniel de Oliveira, Ângelo Antônio, Léo Quintão, Odilon Esteves e Cássio Gabus Mendes.

Batismo de Sangue foi exibido no Festival de Brasília de 2006, onde Helvécio recebeu o prêmio de melhor diretor e Lauro Escorel, o de melhor fotografia. No ano seguinte, o filme chegou ao circuito comercial e levou o prêmio de melhor direção de fotografia no 14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. O roteiro foi publicado em 2008 na Coleção Aplauso, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, e um fotograma do filme foi reproduzido na parede da cela do ex-DOPS, hoje Memorial da Resistência, em São Paulo. É o filme em que a experiência política do diretor e a memória da ditadura aparecem de forma mais direta.

Minas Gerais como matéria-prima

A relação de Helvécio com Minas não se limita à paisagem. Em O Mineiro e o Queijo (2011), ele filmou a produção artesanal de queijo no Serro, na Canastra e no Alto Paranaíba para discutir um patrimônio cultural que, na época, não podia circular fora do estado. O documentário de 72 minutos foi premiado pelo júri popular como melhor longa-metragem na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2012, e ajudou a difundir a situação dos pequenos produtores. Em dezembro de 2011, o Ministério da Agricultura flexibilizou a comercialização do queijo minas artesanal.

A literatura também atravessa essa fase. Elixir do Pajé (1989) adaptou um poema de Bernardo Guimarães; Pequenas Histórias (2007) reuniu contos do folclore brasileiro narrados por uma bordadeira interpretada por Marieta Severo; O Lodo (2020) partiu de um conto de Murilo Rubião; e Só Não Posso Dizer o Nome, trabalho mais recente, combina atores e animação para adaptar uma história em quadrinhos autobiográfica da chilena Natalia Silva Perelman. Na década de 1980, o documentário João Rosa já havia levado à tela a biografia de João Guimarães Rosa por meio de entrevistas com Manuelzão.

Quimera Filmes e a continuidade de um projeto

A Quimera Filmes foi criada em 1989 por Helvécio Ratton e Simone Magalhães Matos. A produtora nasceu para realizar filmes, mas também passou a produzir publicidade e vídeos institucionais, o que ajudou a sustentar uma operação de cinema no Brasil. Amor & Cia. (1998), adaptação de Alves & Cia., de Eça de Queirós, trouxe Marco Nanini e Patrícia Pillar para uma comédia de costumes; Uma Onda no Ar (2002) partiu da história da Rádio Favela, de Belo Horizonte, com roteiro escrito em parceria com Jorge Durán; e O Segredo dos Diamantes (2014) retomou a aventura infantojuvenil.

A parceria com Simone aparece nos créditos de boa parte da filmografia: ela produziu O Lodo, O Segredo dos Diamantes, O Mineiro e o Queijo, Pequenas Histórias, Uma Onda no Ar e Amor & Cia.. A Quimera mantém sede em Belo Horizonte e um catálogo que reúne ficção, documentário e publicidade. Para quem acompanha cinema brasileiro, o nome da produtora funciona como pista para entender a continuidade de uma carreira marcada pela alternância entre ficção e documentário.

Marcos de uma filmografia

Alguns títulos ajudam a situar a obra de Helvécio Ratton:

  • Em Nome da Razão (1979): documentário sobre o Hospital Colônia de Barbacena, referência da luta antimanicomial.
  • A Dança dos Bonecos (1986): primeiro longa de ficção, com bonecos do Giramundo e elementos do folclore.
  • Menino Maluquinho — O Filme (1995): adaptação de Ziraldo premiada no Cairo, em Bellinzona e em Montevidéu.
  • Batismo de Sangue (2007): adaptação de Frei Betto sobre frades dominicanos na ditadura, premiada em Brasília.
  • O Mineiro e o Queijo (2011): documentário sobre o queijo artesanal mineiro, premiado em Tiradentes.
  • O Lodo (2020): adaptação de Murilo Rubião, lançada nos cinemas em 2023.

Reconhecimento e arquivo público

Os prêmios se acumulam em festivais brasileiros e estrangeiros: Margarida de Prata da CNBB por Em Nome da Razão e por Menino Maluquinho, melhor diretor no Festival de Brasília por Batismo de Sangue, Golden Cairo de melhor filme e prêmio do público em Montevidéu. Em 2005, Pablo Villaça publicou Helvécio Ratton: o cinema além das montanhas pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, dentro da Coleção Aplauso. O livro reúne depoimentos do cineasta, uma cronologia de seus trabalhos e se tornou uma das principais fontes públicas sobre sua trajetória.

O documentário Em Nome da Razão também ganhou um espaço permanente no Museu da Loucura, em Barbacena, com uma sala que reproduz o som do filme. A obra de Ratton segue disponível em festivais, mostras e plataformas, e seu nome aparece em verbetes da Enciclopédia Itaú Cultural e em acervos públicos ligados ao cinema brasileiro. Mais do que uma lista de prêmios, esse conjunto mostra um diretor que voltou várias vezes aos mesmos temas — a instituição que oprime, a infância que resiste, a literatura que reorganiza a memória — sem repetir a mesma solução de filme.

Projetos de Helvécio Ratton

Em Nome da Razão
Em Nome da Razão
Documentário de 1979 sobre o Hospital Colônia de Barbacena, marco da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica no Brasil.
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Menino Maluquinho — O Filme
Menino Maluquinho — O Filme
Adaptação de Ziraldo dirigida por Helvécio Ratton, lançada em 1995, sobre uma infância feliz e premiada no Cairo, em Bellinzona e em Montevidéu.
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Batismo de Sangue
Batismo de Sangue
Longa de 2007 baseado no livro de Frei Betto sobre frades dominicanos na resistência à ditadura militar; venceu direção e fotografia em Brasília.
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O Mineiro e o Queijo
O Mineiro e o Queijo
Documentário de 2011 sobre o queijo minas artesanal, filmado no Serro, na Canastra e no Alto Paranaíba; premiado em Tiradentes.
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O Lodo
O Lodo
Adaptação de Murilo Rubião dirigida por Helvécio Ratton, com Eduardo Moreira e Renato Parara, sobre um funcionário e seu psiquiatra.
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