O colapso do sentimento de futuro
Em que mundo vivemos?, publicado em 2020 na coleção O Estado da Democracia na América Latina, dirigida por Bernardo Sorj e Sergio Fausto, parte de um diagnóstico incômodo: os mapas cognitivos coletivos apresentam sintomas de falência. Acumulam-se incertezas sobre trabalho, representação partidária, costumes, geopolítica e clima, e o resultado é um sentimento difuso de que o futuro entrou em colapso.
O livro tem 138 páginas e foi escrito em linguagem de ensaio, não de manual. Cada capítulo enfrenta uma peça desse quebra-cabeça, sem prometer respostas rápidas.
Do Estado de bem-estar à crise da verdade
A análise começa no percurso que vai do liberalismo econômico ao Estado de bem-estar e à contrarreforma neoliberal, tratada pelo autor como remercantilização. Em seguida, examina as contradições das democracias capitalistas e a ascensão da direita autoritária. Dois capítulos são dedicados à dimensão informacional: a sociedade da desinformação e a crise da verdade, e a diluição das fronteiras entre os subsistemas sociais.
Na parte final, Sorj propõe pensar a convivência democrática como um politeísmo de valores — a ideia de que sociedades plurais precisam acomodar valores incompatíveis sem guerra permanente. As conclusões retomam os riscos que ameaçam instituições e direitos e apontam por que a defesa do humanismo voltou a ser uma questão prática.
A edição revista, lançada depois de 2020, foi finalista do Prêmio Jabuti em 2021. É um ponto de entrada acessível para quem quer acompanhar o raciocínio sociológico do autor sobre o presente antes de enfrentar os volumes mais densos da coleção.





