Embora é a conjunção que Paulo Henriques Britto escolheu para o nono livro de poemas: escrever mesmo assim, apesar do fim. O volume saiu em março de 2026 pela Companhia das Letras, com capa de Kiko Farkas e Máquina Estúdio, e foi lançado no dia 17, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio.
A palavra do título atravessa o livro. O Globo registrou a baliza do primeiro poema, “(Escreva, porém. Apesar. Embora.)”, e a do último, “não é mesmo? Hora de ir embora. Adeus.” Entre as duas pontas, o tema é a insistência em encaixar o mundo na forma fixa do verso, não a promessa de que o verso resolva alguma coisa.
O que o livro propõe
A Companhia das Letras apresenta Embora como livro avesso ao sentimentalismo, ao arroubo e à autocomiseração. A linguagem é irônica, equilibrada entre ceticismo e descrença. Uma segunda leitura, diz a editora, pode inverter a resignação aparente. A própria teimosia de escrever funciona, num verso da série “Intransitivas”, como “impulso visceral, orgânico, que mantém o cérebro ativo e combate ataques de pânico”.
“Intransitivas” reúne dez poemas sobre essa insistência. Há peças em português e em inglês. A Folha de S.Paulo leu o soneto de abertura, “Escrito na Primeira Página de um Caderno”, como abre-alas do método de Britto: forma fixa, metalinguagem e autoironia. O primeiro verso anuncia “Desta vez é para valer. Vai dar certo”. O soneto, no hábito do autor, não confirma o anúncio.
Onde ele entra na obra
Embora chega depois de Fim de verão (2022) e depois da posse na cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, em setembro de 2025. Não é um livro de circunstância acadêmica. A finitude já estava em Macau, de 2003, temperada por humor. O que muda é o foco: envelhecimento, perspectiva do fim, e a poesia como presença falsa que ainda assim oferece gosto, som e cor.
O acadêmico descreveu o limite com clareza na nota da própria Academia: o poema não pretende resolver os problemas do mundo nem acabar com a angústia individual. Cria “uma existência não real, mas não de todo improvável, uma presença falsa que compensa”. É nessa ausência que o livro cumpre o que promete.
Para quem faz sentido
O leitor de Embora já convive com soneto, metro e ironia, ou está disposto a entrar por aí. Não é porta de entrada didática nem coletânea comentada. Quem busca a tradução de Dickens ou de Bishop não encontra esse ofício aqui, salvo como obsessão de linguagem. Quem busca o ensaio vai a A tradução literária. Quem busca o conto vai a O castiçal florentino.
A ficha comercial concordante, na Amazon, na Disal e na Martins Fontes, aponta 88 páginas, brochura, primeira edição de 2026, ISBN 978-85-359-4287-3. O preço de capa oscila conforme a loja e não cabe como dado fixo. O caminho de compra da edição impressa está na página do livro.




