Paulo Henriques Britto demora para publicar porque escreve pouco e reescreve cada poema por muito tempo. No mesmo percurso, traduziu mais de cem livros do inglês para o português, de Charles Dickens e Elizabeth Bishop a Thomas Pynchon e Virginia Woolf.
Quem procura o nome costuma chegar por um desses dois lados: o poeta da forma fixa, da ironia e do verso medido, ou o tradutor que pôs na estante brasileira Faulkner, Byron, Wallace Stevens e James Baldwin. Os dois ofícios são a mesma pessoa. Em 22 de maio de 2025, a Academia Brasileira de Letras elegeu esse professor da PUC-Rio para a cadeira 30, com 22 votos, na sucessão de Heloísa Teixeira.
Quem é Paulo Henriques Britto
Paulo Fernando Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1951. O nome com que assina livros dispensa o Fernando do meio. Vive na Gávea. A família era da pequena burguesia carioca e o pai era militar.
No começo da década de 1960, morou com os pais em Washington por pouco mais de dois anos, enquanto o pai estava destacado nos Estados Unidos. O inglês deixou de ser só matéria de escola. Nessa temporada leu Shakespeare, Emily Dickinson e Walt Whitman, autores que continuam na lista pública de leituras de formação.
O retorno ao Brasil não fechou a porta americana. No início dos anos 1970, foi estudar cinema em Los Angeles e no San Francisco Art Institute, sem concluir o curso. O que ficou desse período, no relato que ele deu décadas depois, foi menos o filme do que a escrita: começou a fazer poesia e os textos que, bem mais tarde, entrariam no livro de contos Paraísos artificiais.
A formação que sustenta a aula
A base formal é a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Licenciou-se em língua inglesa e portuguesa em 1978 e concluiu o mestrado em Letras em 1982, na mesma instituição. Em 2002, a PUC-Rio lhe conferiu o título de notório saber.
É professor agregado do Departamento de Letras. Leciona tradução, criação literária e literatura brasileira, no curso de Formação do Escritor e na pós-graduação em Estudos da Linguagem e em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. O eixo do trabalho é tradução de poesia e poesia brasileira contemporânea. A página do departamento é o endereço institucional estável da docência.
Em sala, ele insiste em poetas vivos, entre eles Claudia Roquette-Pinto e André Capilé, e cita Konstantínos Kaváfis mesmo quando afirma que os poetas mais caros a ele são os das línguas que domina, o português e o inglês. O pensamento, diz, também é bilíngue. Isso explica por que a aula e a tradução não aparecem como bico ao lado da poesia: são o mesmo ofício em três mesas.
Poesia medida, publicada devagar
A estreia poética foi Liturgia da matéria, em 1982. Depois vieram Mínima lírica (1989), Trovar claro (1997), Macau (2003), Tarde (2007), Formas do nada (2012), Nenhum mistério (2018), Fim de verão (2022) e Embora (2026). Nove livros de poemas em mais de quarenta anos. O intervalo não é abandono. Ao falar de Nenhum mistério, ele explicou que demora porque escreve pouco e passa muito tempo reescrevendo cada poema. Os que saem quase prontos, disse, são raros.
Trovar claro recebeu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional. Macau recebeu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, hoje Oceanos. O título nomeia uma cidade chinesa onde se fala português: lugar familiar e estrangeiro ao mesmo tempo. O livro conversa com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e João Cabral de Melo Neto sem largar a forma fixa. Houve também edição portuguesa, em 2010.
O verso costuma rimar e medir com cuidado e, no mesmo movimento, falar coloquial, com ironia e desconfiança do sublime. Não é verso livre solto nem soneto de salão. Em Tarde, a metalinguagem divide espaço com o humor e com a dificuldade de a poesia ocupar lugar no país. A frase alta encontra um chiste no meio do caminho.
Contos, ensaio e um livro para criança
A prosa chegou depois. Paraísos artificiais, de 2004, pela Companhia das Letras, foi a estreia no conto: situações extremas, encontros constrangedores e gente que se vê de um ângulo pouco lisonjeiro. Em 2021, dezessete anos depois, O castiçal florentino voltou ao gênero com nove histórias.
No ensaio, três livros organizam o pensamento público: Eu quero é botar meu bloco na rua, a partir do disco de Sérgio Sampaio (2009), um estudo sobre Claudia Roquette-Pinto (2010) e A tradução literária (2012), pela Civilização Brasileira. Em 2025, a Editora 34 publicou o infantojuvenil As incríveis aventuras do super-herói Cupcake Gigante e seu fiel escudeiro Jarbas.
Fora do Brasil, a poesia reunida saiu em Portugal como Por ora, pela Imprensa Nacional, em 2021, cobrindo 1982 a 2018. Há antologia em inglês, organizada por Idra Novey, e outra em sueco. O ensaio sobre tradução ganhou edição em espanhol no Chile, em 2023.
O que ele traduz
A tradução é a parte da obra que mais gente lê sem perceber o nome na folha de rosto. A conta repetida pela Academia e pelas editoras passa de cem livros do inglês para o português. Na poesia, Byron, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop e Frank O’Hara. Na prosa, Jonathan Swift, Charles Dickens, Henry James, Virginia Woolf, William Faulkner, V. S. Naipaul, John Updike, Thomas Pynchon e James Baldwin. Mason e Dixon, de Pynchon, levou anos e teve o autor consultado durante o trabalho.
O caminho inverso também existe. A Academia registra dez livros vertidos para o inglês, de autores brasileiros, entre eles Ferreira Gullar, Luiz Costa Lima e Flora Süssekind. Não é só quem traz o cânone de língua inglesa. Também manda poesia e crítica brasileiras para fora.
A tradução literária é o volume em que esse ofício vira argumento. Não é glossário nem apostila de curso. É ensaio de quem traduz todo dia e discute, com exemplos, o que cabe quando um verso muda de língua, inclusive discordando de teóricos em voga.
A cadeira 30 da Academia
A eleição foi em 22 de maio de 2025. Britto teve 22 votos. O poeta e jornalista Salgado Maranhão teve 10. A cadeira 30 tem como patrono Pardal Mallet e estava vaga desde a morte de Heloísa Teixeira, em março daquele ano. A posse foi em 12 de setembro de 2025, na sede da Academia, no Centro do Rio, com discurso de recepção de Geraldo Carneiro. Britto tornou-se o sétimo ocupante da cadeira desde a fundação da casa.
No discurso, disse que entrar na instituição, para qualquer escritor brasileiro, é uma honra, e que importava, naquele ponto da trajetória, ver uma casa cultural reconhecer o trabalho. Estiveram na cerimônia o reitor da PUC-Rio, padre Anderson Pedroso, e a direção do Departamento de Letras. A cátedra e a cadeira não se confundem, mas passam a dividir a mesma biografia pública.
Os prêmios que a editora e a Academia repetem no currículo são estes:
- Prêmio Portugal Telecom de Literatura, por Macau
- Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, duas vezes
- Prêmio Bravo! Bradesco Prime de Literatura
- Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte
- Prêmio Alceu Amoroso Lima
- Jabuti, em segundo ou terceiro lugar, em três ocasiões
Onde ler e acompanhar
Poesia e contos recentes saem pela Companhia das Letras. O ensaio de tradução saiu pela Civilização Brasileira, na Coleção Contemporânea. O infantil é da Editora 34. A ficha de acadêmico está na Academia Brasileira de Letras. No Instagram, ele comenta traduções que assina, de Dickens a Elizabeth Bishop, e os livros novos.
Na literatura brasileira das últimas quatro décadas, o cruzamento é específico: um poeta que mede o verso, um tradutor que atravessou um século de língua inglesa e um professor que segue em sala na PUC-Rio, agora também na cadeira 30. Quem quer o poema vai a Macau, a Nenhum mistério, a Fim de verão e a Embora. Quem quer o ofício abre A tradução literária. Quem quer a prosa vai aos contos. O resto é aula.





