O castiçal florentino é a volta de Paulo Henriques Britto ao conto, dezessete anos depois de Paraísos artificiais. A Companhia das Letras publicou o livro em 31 de março de 2021, com 224 páginas, capa de Alceu Chiesorin Nunes e ISBN 978-65-5921-032-9. São nove histórias.
O subtexto, na apresentação da editora, é um “e se?”. As narrativas funcionam como formação no mundo adulto: gente aparentemente comum diante de uma escolha que mexe na identidade. Um engenheiro se envolve com um grupo de teatro experimental. Um guerrilheiro em fuga do Exército vira uma espécie de santo numa cidade pequena. Um burocrata tem um flashback estranho ao entrar no prédio onde só ia retirar um documento.
Prosa de quem mede verso
O inconformismo com o previsível passa para a linguagem. Britto troca de registro sem perder o domínio técnico: ensaio, discurso de agradecimento, introspecção em primeira pessoa, metaficção em terceira. Não é o mesmo instrumento do soneto. É a liberdade de quem já provou que sabe a forma e agora testa o que a prosa aguenta.
Paraísos artificiais, de 2004, já trabalhava situações extremas e encontros constrangedores, com prosa que parece coloquial e não é. O castiçal florentino retoma esse olhar e desloca o eixo para a identidade: o que a pessoa seria se um detalhe da vida tivesse ido para outro lado. A ficção aparece como plano de fuga da ordem cotidiana, não como fantasia solta.
Quem procura este livro
Quem busca a poesia de Macau ou de Embora não acha soneto aqui. Quem busca o tradutor de Pynchon ou de Bishop também não acha orelha de romance inglês. O castiçal florentino é para quem quer a ficção curta do próprio Britto, depois de conhecer o poeta ou antes, tanto faz, desde que aceite história de gente comum em vez de manifesto.
A edição impressa está na Companhia das Letras. Não há, neste volume, o ensaio teórico de A tradução literária nem o livro infantil de 2025. São projetos separados. O conto é o lugar em que o autor pergunta o que acontece quando uma vida ordinária escorrega.




