Era uma vez en la Fronteira Selvagem é o primeiro livro infantojuvenil escrito em portunhol selvagem, a língua mestiça que Douglas Diegues pratica desde a estreia na poesia. Publicado pela Edições Barbatana em 2019, o volume reúne sete fábulas que, segundo o autor, foram ouvidas na fronteira do Brasil com o Paraguai antes de virarem texto — histórias recolhidas da fala cotidiana e depois passadas para o papel.
O que são as sete fábulas
O livro parte de uma ideia simples e pouco comum na literatura infantojuvenil brasileira: contar histórias na língua em que elas foram ouvidas, sem traduzir para o português padrão. As fábulas misturam humor, bichos e situações do cotidiano da fronteira, com finais que convidam à conversa sobre a condição humana. Um dos contos, “La forma de la banana”, já virou objeto de análise acadêmica em revista universitária, o que mostra como o livro circula também entre professores e pesquisadores.
Não se trata de histórias “sobre” a fronteira vistas de fora: a fronteira é o próprio lugar de onde a voz narrativa fala. Isso muda o tom da leitura — em vez de exotismo, o leitor encontra naturalidade, porque a mistura de línguas ali não é efeito literário, e sim o jeito normal de falar.
Uma língua para crianças — e para adultos
Diegues costuma dizer que “el portunhol selvagem es como um solzinho escondido dentro da gente”. No livro, essa imagem se traduz em uma experiência de leitura em que o estranhamento inicial vira prazer: palavras conhecidas aparecem escritas de outro jeito, e o leitor vai montando o sentido pelo ritmo, pelo contexto e pelas ilustrações.
A editora recomenda a obra para leitores a partir de 10 anos, sem restringir o público adulto — pelo contrário, sugere que a leitura também diverte quem já passou há muito tempo da infância. Professores que trabalham com diversidade linguística e com literatura de fronteira encontram no livro um material raro em português.
As ilustrações de Ricardo Costa
O texto é acompanhado pelas ilustrações de Ricardo Costa, que assumem o tom fabuloso das histórias e ajudam o leitor jovem a atravessar as passagens em portunhol. A edição tem 48 páginas, formato 20 x 25 cm, capa em cartão 240 g/m² e miolo em papel couché fosco, o que dá ao volume a presença de um livro-objeto, cuidado que combina com o trabalho artesanal que o autor desenvolve nas editoras cartoneras.
A apresentação é de Xico Sá, que resume o espírito da obra: “Como é gostoso o meu Portunhol Selvagem! Com essas ilustrações do artista Ricardo Costa, a gente vê a vida com o filtro ideal para as viagens inesquecíveis”.
Por que este livro importa na obra de Diegues
Até 2019, a produção do autor estava concentrada na poesia, nos relatos e nas traduções recriadas em portunhol. Era uma vez en la Fronteira Selvagem abriu uma frente nova: levar a mesma pesquisa de linguagem para o público infantojuvenil. O jornal O Estado de S. Paulo descreveu a obra, na época do lançamento, como o primeiro livro dedicado ao público infantil de um dos mais bem-sucedidos praticantes do portunhol.
Para quem acompanha a literatura de fronteira, o livro funciona como porta de entrada leve para um universo que, em outros títulos do autor, aparece em sonetos e relatos. Para crianças e jovens, é a chance de descobrir que uma língua pode ser inventada no encontro entre outras — e que isso não é erro, é criação.
Para quem é este livro
Leitores infantojuvenis a partir de 10 anos, famílias que vivem em regiões de fronteira, professores de língua portuguesa e espanhol, educadores bilíngues e pesquisadores de literatura infantojuvenil. A edição está disponível em livrarias e no marketplace brasileiro.




