Douglas Diegues nasceu no Rio de Janeiro em 1965, mas foi na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero que aprendeu a língua que sustenta toda a sua obra. Filho de pai brasileiro e mãe paraguaia, ele cresceu ouvindo o portunhol falado por brasileiros e paraguaios no dia a dia — mistura de português, espanhol e guarani sem norma escrita — e transformou essa fala de rua em linguagem literária sob o nome de portunhol selvagem.
Desde 2002, quando estreou com um livro de sonetos nessa língua, Diegues publicou poemas, contos, traduções e um disco-livro de cantos indígenas, além de fundar duas editoras cartoneras. Quem procura o nome dele costuma querer entender três coisas: o que é o portunhol selvagem, quais livros formam essa trajetória e como o poeta chegou ao circuito literário do Paraguai e da Argentina.
O que é o portunhol selvagem
É o nome que Diegues deu à língua híbrida em que escreve: português, espanhol e guarani misturados, abertos a empréstimos de outros idiomas, sem gramática fixa e sem dicionário. O próprio poeta costuma situar a origem dessa poética em um verso curto, “Moscas phodem volando”, escrito com a linguagem das ruas da fronteira.
A regra, segundo ele, é nunca fixar a língua em normas: “Gramaticarlo sería matarlo”, disse à revista Sibila em 2024. Na mesma entrevista, definiu o portunhol selvagem como uma língua apátrida, que só existe como fala e escrita e que carrega o guarani no centro do tripé formado com o português e o espanhol.
Quem é Douglas Diegues
Filho de um fotógrafo carioca que trabalhou na revista O Cruzeiro e de uma mãe paraguaia, Diegues tinha dois anos quando os pais se separaram e se mudou com a mãe para Ponta Porã, onde vivia o avô materno, um espanhol que havia fugido da Guerra Civil. A cidade faz fronteira seca com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e é nesse corredor de duas línguas — e de muitas outras — que a obra dele se enraíza.
Na juventude, tornou-se amigo e frequentador da companhia de Manoel de Barros. Da convivência nasceram o roteiro do documentário televisivo O Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina, exibido pela TV Cultura em agosto de 2004, e o conceito de vanguarda primitiva, que os dois formularam para definir uma poesia ao mesmo tempo muito antiga e muito nova. Diegues viveu em Assunção entre 2007 e 2010, período em que fundou sua primeira editora.
Quais são os principais livros de Douglas Diegues
A estreia veio com Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas: Sonetos Salvajes (Travessa dos Editores), apontado pela editora argentina InterZona como o primeiro livro de poemas em portunhol publicado no circuito hispano-americano. Sobre os 30 sonetos, Glauco Mattoso escreveu que eles “provocam um estranhamento que desalinha a percepção e constrói um espaço mítico” — por isso os chamou de “sonetos insurretos”.
Desde então, a obra circulou por selos do Brasil, do Paraguai e da Argentina:
- Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas: Sonetos Salvajes (2002) — sonetos em portunhol, pela Travessa dos Editores;
- Uma Flor na Solapa da Miséria (2005) — edição da Eloísa Cartonera, de Buenos Aires;
- El Astronauta Paraguayo (2007) e La Camaleoa (2008) — títulos da Yiyi Jambo, em Assunção;
- Triple Frontera Dreams (2012) — relatos com edição da argentina InterZona;
- Tudo lo que você non sabe es mucho más que todo lo que você sabe (2015) — lançado em edições cartoneras no Brasil, no Chile, no Peru, no México, na Argentina e na Espanha;
- Era uma vez en la Fronteira Selvagem (2019) — primeiro livro infantojuvenil em portunhol selvagem, ilustrado por Ricardo Costa.
Yiyi Jambo e Editora de los Bugres: as editoras do poeta
Em 2007, Diegues fundou em Assunção a Yiyi Jambo, primeira editora cartonera do Paraguai. O formato cartonero nasceu na América Latina como alternativa barata de publicação: os livros são montados à mão, com capas de papelão reaproveitado. Em 2018, o poeta abriu no Brasil a Editora de los Bugres, dando continuidade ao mesmo projeto editorial.
Pela Yiyi Jambo saíram recriações em portunhol de autores consagrados, como El Kuervo, versão do poema de Edgar Allan Poe, e Open Eyes and otros poemas kaures, a partir de Malcolm Lowry. O catálogo também publicou autores brasileiros e paraguaios e organizou a antologia Lluvia Negra, com onze narradores paraguaios e não paraguaios.
O que é Kosmofonia Mbyá-Guarani
Entre o início de 2004 e meados de 2005, Diegues transcreveu e traduziu para o português, com a colaboração de Kerechú Pará e Ramón Barboza e a assessoria de Karaí Miri, os cantos mbyá-guarani gravados ao longo de anos em comunidades do Paraguai pelo antropólogo e musicólogo Guillermo Sequera. O material virou Kosmofonia Mbyá-Guarani (2005), livro com CD que reúne os cantos, transcrições, artigos e depoimentos.
A apresentação é de Manoel de Barros, que escreveu ter sido transportado pelos cantos “para os ancestrais, para os fósseis linguísticos”. O volume é citado como um dos estudos mais sérios já publicados no Brasil sobre poéticas indígenas. Em 2021, ganhou reedição digital, interativa e gratuita pela editora Jasuká, com apoio da revista Errática.
Onde a obra de Douglas Diegues circula hoje
Diegues participou da XI Bienal Internacional de Poesia de Moscou, em 2019, quando leu poemas e integrou o lançamento da antologia Latin American Poetry Today. Em julho de 2025, esteve em Buenos Aires para o conversatório “Escribir en/desde las fronteras”, no Instituto de Literatura Hispanoamericana, e falou sobre a experiência de escrever a partir da fronteira.
Para quem pesquisa literatura, o caso de Diegues interessa justamente por misturar língua, fronteira e tradução. A obra aparece em artigos acadêmicos de revistas como Signótica, da UFG, e Norte@mentos, da UNEMAT, que analisam o portunhol selvagem e o livro infantojuvenil do autor. Em 2021, a revista Piparote publicou uma conversa entre ele e o poeta e ensaísta Antonio Risério a propósito do livro Outrossim.
Perguntas rápidas sobre Douglas Diegues
Onde Douglas Diegues nasceu e onde vive?
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1965, e foi criado em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Vive na fronteira entre Ponta Porã e Campo Grande, com passagens longas por Assunção, no Paraguai.
O que significa portunhol selvagem?
É o nome que o poeta deu à língua literária que mistura português, espanhol e guarani, sem gramática oficial. Ele a usa para escrever sonetos, contos, traduções e livros para crianças.
Quais livros de Douglas Diegues procurar primeiro?
Para conhecer a poesia, Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas e Triple Frontera Dreams. Para leitores jovens, Era uma vez en la Fronteira Selvagem. Para quem estuda língua e fronteira, Mar Paraguayo, na edição crítica organizada por ele com Adalberto Müller.





