Genesis, publicado em 2013, é o projeto em que Sebastião Salgado chamou de carta de amor à Terra o que fotografou entre 2004 e 2011. Oito anos, cerca de trinta viagens, mais de duzentas imagens em preto e branco: montanhas, desertos, oceanos, animais e comunidades que ainda organizam a vida segundo costumes antigos. A edição em português da Taschen, em capa dura, recolhe esse ciclo num formato de mesa, com desenho de Lélia Wanick Salgado.
O livro nasce de um recuo. Depois de Trabalhadores e Êxodos, Salgado adoeceu e sentiu que o arquivo de fome, guerra e mina tinha saturado o corpo. Gênesis não apaga essa história; muda o objeto. Em vez do formigueiro humano, o que resta de planeta quando a indústria ainda não chegou — ou chegou pouco. A crítica e o próprio autor trataram o conjunto como homenagem, não como fuga: o fotógrafo de gente continua fotografando gente, agora enquadrada como espécie entre outras.
O que o ciclo cobre
As viagens atravessam do Ártico aos trópicos, de deserto a cordilheira. Há ilhas, geleiras, rebanhos, rios aéreos vistos de cima, povos isolados. A edição compacta não substitui a exposição em escala de parede, mas organiza o argumento: natureza e humanidade como um único tema, contra a ideia de que o documental só vale quando mostra ruína. Salgado chegou a dizer que o ser humano é animal desta Terra, e que a série amazônica que viria depois apenas prolongava essa frase.
Quem folheia Genesis depois de Gold percebe o contraste bruto. Serra Pelada é o buraco; Gênesis é o que ainda não foi cavado. Os dois livros se explicam melhor juntos do que separados. O mesmo olho que viu a escada de madeira na mina foi o que esperou a luz certa numa cadeia de montanhas. A técnica — preto e branco, granulação, céu carregado — não muda de capricho. É o idioma que ele escolheu nos anos 1970 e nunca largou.
Como usar o livro
Serve a quem ensina fotografia de paisagem sem cair no cartão-postal, a quem pesquisa a virada ambiental da obra e a quem quer um volume presenteável que ainda assim cobra leitura lenta. A edição brasileira em português evita a barreira do texto estrangeiro nas legendas e na apresentação. Vale conferir o formato: o compacto cabe na mão; o original extra-grande pesa e ocupa mesa. Nenhum dos dois é manual de viagem. É arquivo de um fotógrafo que, depois de ver o pior do trabalho humano, foi atrás do que ainda não tinha sido destruído.
Gênesis também antecipa Amazônia. A floresta brasileira, os povos e a militância do Instituto Terra ganham outro peso quando se sabe que o ciclo começou como busca planetária e terminou em casa. Abrir o livro pelo meio, numa crista de montanha, e só depois ir ao retrato humano é um jeito honesto de respeitar a ordem que Salgado quis: primeiro a Terra, depois a gente que ainda cabe nela.




