Outras Américas é o primeiro livro de Sebastião Salgado, resultado de um trabalho começado em 1977 e fechado depois de sete anos de estrada. A edição brasileira da Companhia das Letras, em capa dura, recolhe o olhar do fotógrafo sobre camponeses e povos indígenas da América Latina: Nordeste brasileiro, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Guatemala, México. É o volume em que a carreira deixa de ser agência e vira projeto.
Na introdução, o jornalista Alan Riding descreveu o que as fotos mostram: o mundo dos destituídos, daqueles que desertos e serras observam enquanto os países mudam e os deixam de lado. Um mundo preso por nascimento, família, morte, mito, fé e fatalismo. Salgado já trazia ali a ética que nunca largou — a composição a serviço de uma militância, sem transformar a página em cartaz. A beleza das provas e o peso do que elas retratam caminham juntos, e o livro não pede que o leitor escolha um dos dois.
Por que este livro ainda importa
Outras Américas explica a origem do olho. Antes da mina, do êxodo e da floresta espetacular, Salgado passou anos no interior latino-americano, longe do furo de Washington e perto de gente que o desenvolvimento nacional não inclui. Quem só conhece Gênesis ou Amazônia encontra aqui o ancestral direto: o retrato de quem ficou na terra quando a terra já não garantia nada.
A edição da Companhia das Letras, com tradução de Dorothée de Bruchard, é a rota em português para esse ciclo. Formato generoso, sobrecapa, fotos que às vezes atravessam a lombada. Não é livro de cabeceira. É livro de mesa, para ser aberto em silêncio. Serve a quem estuda fotografia documental, América Latina rural e a formação de um autor que ainda não era o nome de museu que viria a ser.
Como ler em relação ao resto da obra
Lido antes de Trabalhadores, Outras Américas mostra de onde veio a paciência de Salgado. Lido depois de Gold, devolve humanidade miúda à escala da cratera. Lido ao lado de Amazônia, lembra que a questão indígena e camponesa não começou na Taschen de 2021: estava no primeiro livro, em 1986. A continuidade é o método — tempo longo, preto e branco, parceria com Lélia no desenho — e não a repetição do mesmo tema.
Para quem chega pela notícia da morte, Outras Américas é um começo melhor do que a imagem mais famosa. Serra Pelada é o choque. Este livro é o chão. Entre uma porta de madeira com um rosto enquadrado e a escada da mina cabem sete anos de viagem e o resto de uma vida fotografando os que o mapa oficial prefere não ver.




