Gold é o livro em que Sebastião Salgado isolou, em 2019, a série da mina de ouro de Serra Pelada, no Pará. A Taschen publicou o volume com edição de Lélia Wanick Salgado. A capa já entrega o argumento: dezenas de homens sobem escadas improvisadas, curvados pelo saco de minério, num buraco a céu aberto que o fotógrafo comparou às pirâmides, à Torre de Babel e às minas do rei Salomão.
Salgado só conseguiu entrar na mina em setembro de 1986, depois de seis anos de bloqueio pelas autoridades militares. Ficou, fotografou, voltou. As imagens, feitas entre 1986 e 1989, circularam em revistas do mundo inteiro e ajudaram a devolver o preto e branco ao fotojornalismo de grande formato. Muita gente que nunca abriu Trabalhadores conhece Salgado por essa cratera. Gold existe para que a série tenha casa própria, sem se perder no ciclo maior sobre o trabalho manual.
O que a série faz
Não há herói individual. Há massa, lama, escada, ouro e cansaço. Os corpos se repetem até virar padrão visual, e é exatamente isso que o livro explora: o trabalho como arquitetura humana. Serra Pelada chegou a reunir dezenas de milhares de garimpeiros no pico da corrida. Salgado não ilustra estatística. Ele encosta a câmera na subida, no banho de lama, no olhar que não pede retrato de estúdio.
O volume interessa a quem pesquisa fotografia brasileira, história do trabalho e o debate — antigo — sobre se Salgado “estetiza a miséria”. Ele próprio respondeu a essa acusação ao longo da vida, recusando o rótulo de esteta. Gold deixa o material visível para o leitor julgar: a beleza da composição está lá, e o horror da mina também. Tirar uma das duas camadas é falsear o arquivo.
Como chegar ao livro
A edição Taschen disponível no Brasil costuma vir em capa dura, com o título internacional Gold. Não é um guia turístico da mina, que aliás já não existe no estado fotografado. É o documento de um episódio específico da Amazônia mineral, feito por um brasileiro que chegou ali depois de fotografar fome no Sahel e camponeses na América Latina. Quem quiser o contexto mais largo deve cruzar Gold com Trabalhadores; quem quiser só Serra Pelada encontra neste título o corte limpo.
Abrir Gold antes de Amazônia muda a leitura da floresta. A mesma região que depois aparecerá em rios e povos indígenas aparece aqui como buraco. Os dois livros não se anulam. Mostram o que a terra brasileira pode ser quando o ouro manda — e o que ainda resta quando o fotógrafo decide olhar para outra direção.




