Na cratera de Serra Pelada, no Pará, o que Sebastião Salgado viu em 1986 não parecia só uma mina: era um formigueiro humano, escadas de madeira, corpos cobertos de lama e sacos de minério nas costas. Aquela cena — depois reunida no livro Gold — ainda é o atalho pelo qual muita gente chega ao fotógrafo mineiro.
Salgado morreu em 23 de maio de 2025, em Paris, aos 81 anos. A família informou leucemia grave, desenvolvida como complicação de uma malária contraída em 2010, numa expedição fotográfica na Indonésia. O anúncio veio pelo Instituto Terra, ONG que ele fundou com Lélia Wanick Salgado na fazenda da família, em Aimorés. Quem busca o nome agora mistura biografia, livros e essa virada: o economista que largou o relógio de projeto internacional para fotografar trabalho, êxodo e, no fim, trechos do planeta ainda pouco tocados.
Quem foi Sebastião Salgado
Sebastião Ribeiro Salgado Júnior nasceu em 8 de fevereiro de 1944, em Aimorés, Minas Gerais. Filho único homem de uma família de pecuaristas — tinha sete irmãs —, passou a infância no interior e levou essa paisagem de fazenda, gado e mata degradada para o resto da vida. Não começou como fotógrafo. Formou-se em Economia na Universidade Federal do Espírito Santo, fez mestrado na Universidade de São Paulo em 1968 e doutorado na Universidade de Paris.
A ida à França, em 1969, coincidiu com o endurecimento da ditadura militar brasileira. Salgado e Lélia, com quem se casou em 1967, fixaram residência em Paris. Dali ele construiria a carreira que o faria circular por mais de 120 países, sempre em preto e branco, com projetos longos demais para o ciclo de uma revista e densos demais para um único ensaio.
O que o distingue de outros nomes da fotografia documental não é só o tema. É o tempo: anos dentro de uma mesma pergunta. Trabalho manual. Deslocamento em massa. Natureza ainda sem cicatriz visível. Floresta amazônica e povos indígenas. Cada ciclo virou livro, exposição itinerante e, depois, um modo de o público brasileiro reconhecer uma imagem sem precisar do crédito.
Foi Embaixador da Boa Vontade da UNICEF a partir de 2001 e, em 2016, eleito para a Academia de Belas-Artes da França, no Institut de France. Em 2017 tomou posse da cadeira de fotógrafo, o primeiro brasileiro a entrar nesse rol. Recebeu o W. Eugene Smith Memorial Fund em 1982, a Medalha do Centenário da Royal Photographic Society em 1993, o Prêmio Príncipe de Astúrias das Artes em 1998 e, mais tarde, honrarias como o Praemium Imperiale e o doutorado honoris causa de Harvard.
Como um economista virou fotógrafo
O primeiro ofício foi o de economista. Trabalhou no Ministério da Fazenda no fim dos anos 1960 e, já na Europa, na Organização Internacional do Café. As viagens de trabalho à África, muitas vezes em missão conjunta com o Banco Mundial, colocaram nas mãos dele a Leica de Lélia. As primeiras sessões, nos anos 1970, pesaram mais do que o cargo. Em 1973 abandonou a carreira estável, voltou a Paris e passou a viver de fotojornalismo.
Passou pelas agências Sygma e Gamma antes de entrar, em 1979, na cooperativa Magnum Photos. Em 30 de março de 1981, encarregado de cobrir os cem primeiros dias de Ronald Reagan, fotografou o atentado de John Hinckley Jr. em Washington. A venda das imagens para jornais do mundo inteiro financiou o primeiro grande projeto pessoal na África. A sequência importa: o furo internacional não virou especialidade. Virou caixa para o trabalho lento.
Em 1974, em Moçambique, sobreviveu à explosão de uma mina terrestre e carregou lesão na coluna pelo resto da vida. Também fotografou a Revolução dos Cravos em Portugal e as independências em Angola e Moçambique. Em 1994, depois da Magnum, fundou com Lélia a Amazonas Images, estúdio que passou a representar com exclusividade o arquivo. Ela concebeu e desenhou a maior parte dos livros e das exposições; sem esse desenho editorial, a obra circularia de outro jeito.
O casal teve dois filhos, Juliano e Rodrigo. Juliano Ribeiro Salgado, cineasta, dirigiu com Wim Wenders o documentário O Sal da Terra (2014), indicado ao Oscar de melhor documentário. O filme tornou visível, para um público que talvez nunca tivesse aberto um photobook, o método de trabalho e o cansaço físico de décadas na estrada.
Trabalho, êxodo e a virada para a natureza
O primeiro livro, Outras Américas (1986), veio de sete anos de viagem pela América Latina, do Nordeste brasileiro às montanhas do Chile, Bolívia, Peru, Equador, Guatemala e México. No mesmo ano saiu o trabalho sobre a seca no Sahel, feito em colaboração de meses com Médicos sem Fronteiras. Entre 1986 e 1992 concentrou-se no trabalho manual em vários continentes, publicado como Trabalhadores: uma arqueologia visual da era industrial, do corte de cana à mina, do navio ao frigorífico.
De 1993 a 1999 voltou-se ao deslocamento em massa. Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, ambos de 2000, reúnem refugiados, migrantes e crianças sem residência fixa. Na introdução de Êxodos, Salgado escreveu que sentia, mais do que nunca, que a raça humana é uma só: cores, línguas e oportunidades mudam; o medo da morte e a busca de terra nova, não. Em setembro de 2000, com apoio das Nações Unidas e da UNICEF, montou no escritório da ONU em Nova York uma exposição com 90 retratos de crianças extraídos dessa série.
A virada seguinte tem data e motivo. Depois de anos fotografando fome, guerra e trabalho exaustivo, Salgado adoeceu e recuou. O projeto Gênesis, realizado entre 2004 e 2011 e publicado em 2013, saiu como carta de amor à Terra: montanhas, desertos, oceanos, animais e comunidades que ainda vivem segundo costumes ancestrais. Amazônia, publicado em 2021 pela Taschen com edição de Lélia, levou seis anos na floresta brasileira e visita de uma dezena de povos, entre eles Yanomami, Asháninka, Yawanawá, Zo’é, Kuikuro e Macuxi.
- Outras Américas (1986): camponeses e povos indígenas da América Latina.
- Trabalhadores (anos 1990): o trabalho manual como história visível.
- Êxodos (2000): migração, refúgio e infância deslocada.
- Gênesis (2013): paisagens e povos pouco alterados pela sociedade industrial.
- Gold (2019): a mina de Serra Pelada, fotografada entre 1986 e 1989.
- Amazônia (2021): floresta, rios e povos indígenas da Amazônia brasileira.
Serra Pelada permanece o retrato mais citado. Salgado só conseguiu entrar na mina em setembro de 1986, depois de anos de bloqueio militar. O que viu, disse depois, lembrou pirâmides, Torre de Babel e minas do rei Salomão: cinquenta mil homens num buraco a céu aberto. Gold, publicado pela Taschen em 2019, recolhe essa série num volume próprio, separado do ciclo mais amplo de Trabalhadores.
Instituto Terra: a fazenda que voltou a ser floresta
Em 1998, Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado fundaram o Instituto Terra em Aimorés, na antiga Fazenda Bulcão. A terra da família, cansada de pecuária, virou Reserva Particular do Patrimônio Natural e palco de restauração da Mata Atlântica na bacia do Rio Doce. A ONG soma restauração ecossistêmica, educação ambiental e desenvolvimento rural. Salgado chegou a falar publicamente em mais de 2,5 milhões de mudas plantadas, com plano de seguir o plantio de espécies de ciclo longo.
O instituto não é um apêndice piegas da biografia. É o outro lado da mesma pergunta que atravessa Gênesis e Amazônia: o que sobra da Terra quando o trabalho e o deslocamento já foram fotografados. A sede em Minas, o Instagram @institutoterraoficial e o site oficial são hoje o endereço institucional mais estável da herança do casal. Em 2025, ao anunciar a morte do fundador, o Instituto Terra tratou o legado como terra restaurada, gente formada e semente que continua a ser plantada.
Há um cruzamento brasileiro pouco óbvio para quem chega só pelas fotos da Amazônia. O livro Terra, sobre a luta dos sem-terra, trouxe prefácio de José Saramago e poemas de Chico Buarque. A fotografia de Salgado conversa com a canção e com a reportagem, não só com o museu. No circuito visual contemporâneo brasileiro, um nome como o de Vik Muniz opera outro recorte — matéria, citação, aterro —, mas a pergunta sobre o que a imagem faz com o trabalhador e com a paisagem continua no mesmo país.
Livros, exposições e O Sal da Terra
Os livros de Salgado não são meros catálogos de exposição. São o formato em que o projeto se fecha: sequência, ritmo, texto curto, desenho de Lélia, papel que segura o preto. A Taschen concentrou Gênesis, Amazônia, Gold, África e Kuwait. A Companhia das Letras reeditou Outras Américas em português. Quem procura volume de mesa encontra edições compactas; quem quer o ciclo inteiro precisa do formato grande, pesado, pensado para ficar aberto.
As exposições itinerantes — do Sesc Pompeia ao Superior Tribunal de Justiça, de museus europeus a mostras na ONU — repetem o mesmo princípio: imagem em escala humana, sala escura, silêncio. Não há atalho de feed que substitua o tamanho original de uma prova de Serra Pelada ou de um retrato yanomami. O documentário O Sal da Terra ajuda a entrar; o livro segura a permanência.
Para acompanhar o arquivo e a ONG, os endereços públicos mais úteis são o site do Instituto Terra, o Instagram pessoal @sebastiaosalgadooficial e a página do autor no catálogo brasileiro de livros. Não é preciso tratar o fotógrafo como guru nem como santo laico. Basta ler a sequência: economia, exílio, agência, mina, êxodo, floresta plantada de novo.
Quando Sebastião Salgado morreu
A morte, em Paris, no dia 23 de maio de 2025, reabriu o arquivo de uma vez. Jornais brasileiros e estrangeiros repetiram Serra Pelada, Gênesis e o Instituto Terra. A causa — leucemia ligada à malária de 2010 — amarra um detalhe cruel da biografia: o corpo que atravessou 120 países também pagou a conta das expedições. A obra, essa, continua nas salas, nas edições Taschen e Companhia das Letras, nas mudas de Aimorés e nas perguntas que as fotos ainda fazem sobre trabalho, fuga e floresta.
Quem chega agora pelo nome, pelo livro ou pela notícia da morte encontra a mesma pessoa. Economista de Aimorés. Fotojornalista de Paris. Autor de ciclos, não de cliques. Marido e parceiro de Lélia. Pai de Juliano. Fundador de uma floresta que não existia mais quando ele voltou para casa.





