Geração 90: Os Transgressores é o segundo volume com que Nelson de Oliveira tentou dar nome, e não só vitrine, aos contistas que estrearam no fim do século XX. O livro saiu pela Boitempo em 2003, com ISBN 9788575590232, e a Associação Paulista de Críticos de Arte o escolheu como melhor projeto editorial daquele ano.
Ele não nasce sozinho. Em 2001, a mesma editora tinha publicado Geração 90: manuscritos de computador, com 17 contos inéditos. Nelson disse à Folha, na época, ter lido cerca de 200 estreantes da década, separado uns 50 e fechado a seleção em 17. O subtítulo, “os melhores contistas brasileiros surgidos no final do século XX”, era propositalmente provocador. A segunda leva veio para continuar o gesto, não para repetir os mesmos textos.
Transgressão de forma, não de manifesto
No lançamento, feito no Riocentro em maio de 2003, ele explicou à Folha que a transgressão do subtítulo era formal, não ideológica. Não se apresentava como ruptura. Dizia continuidade com o boom do conto dos anos 1970, o de Ignácio de Loyola Brandão, Márcia Denser e Sérgio Sant'Anna. Na apresentação do próprio livro, liga o volume ao legado das vanguardas, de Joyce a Breton e a Oswald, e trata os contos como mensagens de uma linguagem que já não cabia no modelo tradicional de ação, conflito e desenlace.
A antologia reúne originais escritos para o projeto. Entre os 16 nomes estão Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Fausto Fawcett, Altair Martins, Joca Reiners Terron, Luci Collin, Edyr Augusto, Simone Campos, André Sant'Anna e Ronaldo Bressane. A faixa etária era larga de propósito: do paraense Edyr Augusto, nascido em 1954, à carioca Simone Campos, nascida em 1983. Nelson insistia que o livro era uma antologia de contistas, não uma coletânea de contos já conhecidos.
Por que este volume, e não o anterior
Anos depois, numa página da Biblioteca Pública do Paraná, ele disse que, dos dois volumes, Os transgressores era o seu predileto. A razão que deu era a galera mais experimental, a que subvertia a linguagem e fragmentava o discurso. O primeiro livro tinha acendido a discussão. O segundo era o que ele queria reler.
Para o leitor de hoje, o interesse não é saber se “geração” era um conceito estável. O próprio organizador tratou o rótulo como uma provocação num meio que achava morno. O interesse é ver quais prosadores ele julgou indispensáveis em 2003 e como essa escolha conversa com a própria ficção dele, ainda assinada Nelson de Oliveira, antes de Luiz Bras ocupar a capa dos romances adultos.
A edição da Boitempo segue sendo a porta de entrada. O volume de 2001, Manuscritos de computador, ISBN 9788585934873, complementa a leitura, mas é outro livro, com outro elenco e outra função. Comprar um não substitui o outro.
O caminho até a Boitempo, contado por ele na Biblioteca Pública do Paraná, passou por Luiz Ruffato. Ruffato falou com Ivana Jinkings, editora da casa, e a publicação saiu do papel. Nelson queria mais do que uma coletânea comum, porque achava que uma simples reunião de contos não duraria. O rótulo Geração 90 foi o cercado que ele escolheu para a briga. Funcionou no sentido mais concreto: o livro foi comentado, elogiado e atacado, e em 2003 ganhou a continuação que a APCA premiou como projeto editorial.




