Sozinho no Deserto Extremo é o romance em que Luiz Bras deixou de ser um segundo nome de circulação curta e virou o nome da capa. A editora Prumo, no selo Leia, publicou o livro em 2012, com 320 páginas, formato 14 por 21 centímetros e ISBN 9788579272165. A Folha de S.Paulo tratou a obra como o primeiro romance adulto dessa assinatura.
O publicitário Davi acorda num domingo e percebe que a casa está quieta demais. A mulher e os filhos pequenos não estão. No lugar das pessoas, ficam montes de roupa. O telefone cai na caixa postal. Da janela, e depois na rede, a cidade também parece ter esvaziado. A solidão que o livro persegue não é a metáfora de se sentir só na multidão. É a hipótese de estar só de fato, sem ninguém em quem se mirar.
O que o autor disse que estava fazendo
No lançamento, Nelson de Oliveira, então com 46 anos e ainda apresentado como paulista, contou que a troca de nome tinha começado em 2006, por cansaço criativo. Luiz vinha do nome do meio. Bras era a escolha de um sobrenome curto, ligado ao Brasil. Sozinho no deserto extremo foi a prova de fogo: o alter ego não só assinava o livro como passava a ser a razão de ser da literatura, nas palavras dele à Folha.
Uma década depois, num texto do blogue Ficção Científica Brasileira, Luiz Bras voltou ao romance e descreveu o projeto como cem dias na vida de um homem de meia-idade numa São Paulo deixada inteira para ele. Davi, escreveu, é um alter ego “dono do mundo”, parecido com o autor na disposição, não no corpo. A foto do lançamento, feita em 20 de agosto de 2012 na Avenida Paulista, coloca o escritor diante do Conjunto Nacional, prédio que a legenda da imagem associa a uma explosão dentro da história.
O que muda em relação ao Nelson anterior
A Folha marcou a distância entre as duas assinaturas com um par clássico: Jekyll e Hyde, sem transformar isso em caricatura. O Nelson de Poeira: demônios e maldições citava Mallarmé e vinha do cuidado formal, próximo do concretismo. Bras troca esse eixo por enredo, ficção científica e cultura popular. Bradbury entra no lugar do poeta francês. Filmes como O sexto sentido, Os outros e Vanilla Sky passam a funcionar como referência de trama, não como enfeite de orelha.
A orelha do próprio livro complica a leitura biográfica. Ela apresenta um estreante de 44 anos, nascido no Mato Grosso do Sul, doutor em Letras pela USP, fã de animação e de universos paralelos. A reportagem desmonta o jogo: aquele rosto é o de Nelson de Oliveira. Quem for ao livro atrás de dados pessoais deve ficar com a entrevista, não com a orelha.
Para quem lê ficção científica brasileira, o romance é a porta mais clara da assinatura Luiz Bras. Não promete manual de sobrevivência nem fantasia de recomeço confortável. Promete uma São Paulo despovoada e um narrador obrigado a sustentar a realidade sozinho. A edição da Prumo, em brochura, é o item físico correspondente a esse lançamento de 2012.




