Gigante pela própria natureza é a rapsódia em que Nelson de Oliveira volta a um livro longo sem se limitar ao nome Luiz Bras. A edição digital circula desde 2019 com o nome Nelson de Oliveira. Em 11 de setembro de 2022, a Editora Patuá lançou o volume em papel e apresentou o autor na capa como Olyveira Daemon, ao lado das assinaturas Nelson de Oliveira e Luiz Bras.
A sinopse publicada pela editora acompanha um homem que foge dos sete pecados capitais, transforma-se em mulher sem deixar de ser homem, engravida e dá à luz uma criança chamada Eu, destinada, no delírio do enredo, a salvar o Brasil e a humanidade. Deuses e demônios das mitologias ameríndia e africana atravessam a história. Entram também Vyscondim, Narizim, Pedrim e uma boneca chamada Gabi. O livro se divide em Amor, Ordem e Progresso, e usa o lema positivista da bandeira para desorganizá-lo.
Personagens que sabem que são personagens
Em entrevista ao ArteCult, Nelson descreveu a rapsódia como uma história de personagens autoconscientes, sem livre-arbítrio. Para essas figuras, o autor seria uma força externa, no mesmo papel de um titereiro. A ideia, disse ele, veio primeiro do cotidiano e depois da cosmologia e da mecânica quântica. Não é um romance histórico sobre o hino nacional, embora o título cite o verso. É uma farsa metafísica com o Brasil como cenário e como alvo.
O tom continua o do contista do grotesco, não o do romance de solidão urbana de Sozinho no deserto extremo. Lá, a cidade esvazia e um publicitário mede o que resta de realidade. Aqui, o país inteiro vira palco de deuses, trocas de corpo e uma criança com o nome Eu. As duas obras mostram o mesmo escritor em contratos diferentes: uma quer trama de ficção científica; a outra quer alegoria desmedida.
Qual edição comprar
Há um livro de negócios homônimo, assinado por Miguel Setas, sobre ESG e o Brasil como potência natural. Não é este. A capa certa traz o nome Olyveira Daemon, o subtítulo de romance e a faixa verde e amarela em espiral. O texto digital de 2019 e o lançamento da Patuá em 2022 são a mesma obra, não dois projetos.
Para quem acompanha a carreira, o livro importa porque desmente a aposentadoria anunciada em 2012. Nelson de Oliveira não ficou no Caribe da brincadeira dada à Folha. Voltou a assinar ficção longa, agora também como Olyveira Daemon, sem apagar Luiz Bras. A rapsódia é o documento dessa volta: menos antologia de uma geração, mais invenção solta sobre o país que o título finge celebrar.
A apresentação da Patuá no lançamento lista, ao lado desta rapsódia, o romance Bamboleio que faz gingar e as coletâneas Vinte & um e Às moscas, armas!. Também lembra as antologias Fractais tropicais, de ficção científica, e Mundo-vertigem, de ficção fantástica, além da página no Rascunho. Gigante pela própria natureza entra nessa fase em que o escritor já não escolhe um único gênero para caber. O livro pede leitor disposto a alegoria, trocadilho e mitologia, não a quem busca biografia do autor em chave realista.




