O Filho do Crucificado é o livro de contos que fixou Nelson de Oliveira na Associação Paulista de Críticos de Arte antes de Luiz Bras existir como assinatura pública. Quem chega por esse título não está atrás do romance de São Paulo vazia. Está atrás da prosa curta com que ele se apresentou nos primeiros anos de carreira.
A Ateliê Editorial publicou o volume em 2001, na primeira edição, com 176 páginas e o ISBN 9788574800776. A ficha da editora descreve uma novela, a que dá nome ao livro, e cinco contos reunidos sob o título Flores e pele à flor da pele. O eixo anunciado é o fim do mundo, puxado para o grotesco e para o sobrenatural, na mesma chave que a Enciclopédia Itaú Cultural depois resumiria como o cotidiano visto pelo lado bizarro. Morte e sexo aparecem aí como matéria recorrente, não como slogan de capa.
O que a premiação confirma
Em 2001, a APCA elegeu O filho do crucificado o melhor livro de contos. A apresentação publicada pela Gazeta do Povo em 2007 repete o dado e acrescenta que o livro também saiu no México. Não se trata, portanto, de um título lateral dentro da bibliografia. É a obra que a própria crítica paulista isolou quando o autor ainda assinava só Nelson de Oliveira.
O volume não deve ser confundido com o ciclo de Fábulas. Aquele conjunto, premiado em Cuba em 1995, se repartiu no Brasil em Os saltitantes seres da Lua, Naquela época tínhamos um gato, Treze e Algum lugar em parte alguma. O filho do crucificado é outro livro, de outra editora, e foi ele, não os desdobramentos de Fábulas, que a APCA destacou em 2001.
Para quem o livro serve
O leitor de conto brasileiro do fim do século XX encontra aqui o Nelson anterior à troca de nome: diretor de arte formado pelo Mackenzie, já com livros na Companhia das Letras, ainda longe da ficção científica de trama explícita. A prosa pede disposição para o insólito. Não é romance de formação nem antologia de vários autores.
A edição de referência continua sendo a da Ateliê, em brochura. Exemplares circulam em sebos e em livrarias que trabalham sob encomenda, porque o título é de 2001 e não foi reeditado em série comercial recente. Vale cruzar o ISBN antes de comprar, para não cair em livros religiosos de título parecido, que não têm relação com este autor.
Dentro da trajetória, o livro explica por que o nome Nelson de Oliveira já tinha peso quando, anos depois, ele resolveu assiná-lo como passado. Sem este volume, a Geração 90 parece um projeto de organizador. Com ele, aparece também o contista que a crítica tinha acabado de premiar.
Na estante imediatamente anterior estão Naquela época tínhamos um gato, de 1998, pela Companhia das Letras, e Subsolo infinito, de 2000, também na Companhia. A maldição do macho sairia pela Record em 2002, com edição em Portugal. O filho do crucificado fica no meio desse bloco, publicado pela Ateliê, a mesma casa de Oficina do escritor, anos depois. É o ponto em que o contista já não depende só da bolsa de 1989 para ser lido fora do círculo da oficina.




