Contexto e proposta de Gimba Presidente dos Valentes
Gimba, Presidente dos Valentes é a montagem que Flávio Rangel dirigiu em 1959 para o Teatro Popular de Arte, no Rio de Janeiro. Escrita por Gianfrancesco Guarnieri, a peça acompanha um personagem do morro em conflito com a polícia e com a própria comunidade, num retrato direto da desigualdade brasileira.
Com Maria Della Costa no elenco, a encenação ficou marcada pelo uso de samba e gafieira dentro de uma estrutura naturalista. As cenas coletivas, como a invasão policial e as reuniões dos moradores, davam movimento a um grande painel cênico, elogiado por crítica e público. Foi nesse trabalho que Rangel começou a parceria com o cenógrafo Cyro Del Nero.
O espetáculo representou o Brasil no Festival do Teatro das Nações, com apresentações em Paris, Roma e Portugal. A temporada internacional consolidou a reputação do diretor e mostrou que uma montagem brasileira, com sotaque e temas locais, conseguia ocupar palcos europeus.
Naquele ano, Rangel perdeu o prêmio de melhor direção por apenas um voto — 18 a 17 — para Bertolt Brecht, homenageado in memoriam. O detalhe virou parte da história do espetáculo e ilustra a força de uma geração que estava construindo uma dramaturgia nacional moderna.
Gimba marca o ponto em que o diretor saiu da cena experimental e ganhou projeção internacional. A peça também antecipa recursos que ele levaria para o TBC e para os musicais dos anos 1970 e 1980: multidão em cena, música popular integrada à ação e ritmo de espetáculo.
O texto de Guarnieri dava continuidade ao teatro de temática social que o autor havia iniciado com Eles Não Usam Black-Tie e colocava no centro da cena um trabalhador em conflito com as estruturas de poder. Rangel aproveitou esse material para construir um espetáculo de grande formato, no qual o morro deixava de ser cenário pitoresco e passava a ocupar o palco como protagonista. Críticos da época destacaram justamente essa capacidade de organizar multidões em cena sem perder o foco narrativo.
A montagem nasceu ligada à companhia de Maria Della Costa e ao Teatro Popular de Arte, iniciativas que buscavam levar o teatro a públicos mais amplos e a textos de autores nacionais. Ao encenar Guarnieri com esse elenco, Rangel ajudou a firmar a ideia de que a dramaturgia brasileira podia sustentar palcos grandes e turnês internacionais.





