Flávio Rangel foi o primeiro brasileiro a assumir a direção artística do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1960, e um dos encenadores que deram forma ao teatro moderno no país. Em três décadas de trabalho, dirigiu mais de 80 espetáculos, escreveu crônicas para o Pasquim e a Folha de S.Paulo e traduziu e adaptou autores como Arthur Miller. A trajetória dele ajuda a entender como o palco brasileiro passou dos grupos experimentais dos anos 1950 aos grandes musicais das décadas de 1970 e 1980.
Quem procura Flávio Rangel hoje costuma chegar por dois caminhos: as montagens que renovaram a cena paulistana e o espetáculo Liberdade, Liberdade, escrito com Millôr Fernandes e transformado em símbolo de resistência à ditadura militar. Este perfil reúne origem, formação, principais trabalhos no teatro e a produção de crônicas que acompanhou o país por quase quarenta anos.
Quem foi Flávio Rangel
Flávio Nogueira Rangel nasceu em Tabapuã, no interior de São Paulo, em 6 de agosto de 1934, e morreu na capital paulista em 25 de outubro de 1988, aos 54 anos, vítima de câncer de pulmão. Foi diretor teatral, cenógrafo, jornalista, tradutor e diretor artístico — ofícios que exerceu muitas vezes ao mesmo tempo, em uma época em que o encenador brasileiro acumulava funções dentro e fora do palco.
O reconhecimento público dele se apoia em três frentes: a direção de espetáculos de grande elenco, a tradução e a adaptação de textos estrangeiros e as crônicas políticas publicadas na imprensa. É essa combinação que faz de Flávio Rangel uma figura estudada tanto por quem pesquisa teatro quanto por quem investiga a vida cultural brasileira entre a ditadura e a redemocratização.
Da faculdade de direito ao palco
Flávio Rangel começou a escrever e adaptar textos para os teleteatros do Grande Teatro Tupi em 1956, ainda aluno de direito. A decisão de seguir no teatro veio depois de assistir a A Falecida, peça de Nelson Rodrigues: saiu do espetáculo convencido de que a cena era o seu lugar.
Em 1957, entrou no Núcleo Experimental do Teatro Brasileiro de Comédia e pôs em cena Do Outro Lado da Rua, de Augusto Boal. No ano seguinte, dirigiu Juventude Sem Dono, com elenco encabeçado por Milton Moraes, e recebeu o prêmio de revelação de direção da Associação Paulista de Críticos Teatrais.
Gimba e a consagração internacional
Em 1959, dirigiu para o Teatro Popular de Arte Gimba, Presidente dos Valentes, de Gianfrancesco Guarnieri, com Maria Della Costa no elenco. A montagem levou cenas de samba e gafieira para dentro do naturalismo e virou um grande painel da vida no morro. O espetáculo representou o Brasil no Festival do Teatro das Nações, passando por Paris, Roma e Portugal, e consolidou o diretor, então com menos de 25 anos, como um dos nomes centrais da nova geração.
O prêmio de melhor direção daquele ano ficou com Bertolt Brecht, homenageado in memoriam, por 18 votos a 17. A partir de Gimba, Flávio Rangel passou a trabalhar com o cenógrafo Cyro Del Nero, parceria que marcou seus primeiros espetáculos de grande porte.
O primeiro brasileiro à frente do TBC
Em 1960, o empresário Franco Zampari o convidou para assumir a direção artística do Teatro Brasileiro de Comédia, casa que até então havia sido comandada apenas por estrangeiros, como Adolfo Celi e Ruggero Jacobbi. Flávio Rangel foi o primeiro brasileiro a ocupar o posto e deu ao repertório apoio explícito à dramaturgia nacional.
À frente do TBC, levou à cena O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, com Leonardo Villar no papel principal, e A Semente, do mesmo autor. Os dois espetáculos lhe renderam prêmios Saci, Governador do Estado de São Paulo e APCT de melhor diretor em anos consecutivos. Em 1961, venceu de novo o APCT com A Escada, de Jorge Andrade.
Na sequência vieram A Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, com Dionísio Azevedo e Cleyde Yáconis, e A Revolução dos Beatos, de Dias Gomes. Já fora do TBC, montou Depois da Queda, também de Miller — a primeira encenação do texto fora dos Estados Unidos —, com Paulo Autran e Maria Della Costa, espetáculo que levou a Buenos Aires em 1965.
Liberdade, Liberdade e a resistência à ditadura
Em 1965, ao lado de Millôr Fernandes, escreveu e dirigiu Liberdade, Liberdade para o Grupo Opinião. O espetáculo, montado em plena ditadura militar, tornou-se um dos maiores sucessos de público da época e foi proibido pela censura poucos meses depois da estreia.
O posicionamento político não era só temático. Em protesto contra um pronunciamento do presidente Castelo Branco na reunião da Organização dos Estados Americanos, no Rio de Janeiro, Flávio Rangel foi preso com outros intelectuais, libertados após semanas de pressão da classe artística. A partir de 1969, passou a escrever crônicas para o Pasquim, o que o levaria de novo à prisão em 1970. Entre 1978 e 1984, assinou coluna na Folha de S.Paulo.
Musicais, grandes elencos e o teatro de massa
Nas décadas de 1970 e 1980, Flávio Rangel alternou montagens de repertório e grandes produções comerciais. Dirigiu Édipo Rei, de Sófocles, com Paulo Autran; Esperando Godot, de Samuel Beckett, com Walmor Chagas e Cacilda Becker — último espetáculo da atriz, que sofreu um derrame durante uma das apresentações —; e versões para Hamlet e para o musical A Capital Federal, de Artur Azevedo.
Nos musicais, O Homem de la Mancha, de 1972, trouxe Bibi Ferreira de volta aos palcos depois de oito anos dedicados à televisão. Vieram ainda Pippin, Amadeus, com Raul Cortez, e Piaf, que marcou um dos momentos mais elogiados da carreira de Bibi Ferreira. Em 1979, assinou O Rei de Ramos, musical de Dias Gomes e Chico Buarque com Paulo Gracindo no elenco. Fechou a carreira em grande estilo com Cyrano de Bergerac, em 1985, com Antonio Fagundes e Bruna Lombardi à frente da Companhia Estável de Repertório.
Fora do teatro, dirigiu shows de Simone e Nara Leão, o espetáculo Faz Escuro mas Eu Canto, de Thiago de Mello e Sérgio Ricardo, apresentações do grupo Raíces de América e desfiles da escola de samba Vila Isabel, em 1976 e 1977.
O cronista e os livros
As crônicas publicadas em jornais e revistas foram reunidas em quatro livros: Seria Cômico Se Não Fosse Trágico, A Praça dos Sem Poderes, Os Prezados Leitores e Diário do Brasil. Neles, o diretor comenta inflação, censura, bastidores políticos e o cotidiano brasileiro com o mesmo olhar de quem montava um espetáculo: ritmo, contraste e um elenco de personagens reais.
Como tradutor e adaptador, assinou versões de peças de Arthur Miller, Peter Shaffer e J. B. Priestley, trabalho que ajudou a ampliar o repertório estrangeiro encenado no país.
Vida pessoal e legado
Flávio Rangel foi casado com a atriz Ariclê Perez, com quem dividiu palcos e projetos. Do primeiro casamento, com Maria Dulce Pedreira, nasceu Ricardo Pedreira Rangel, sócio-diretor da Conspiração Filmes e colunista do jornal O Globo.
O diretor morreu em 1988 e deixou uma folha de serviços ao teatro brasileiro lembrada por parceiros como o cenógrafo Gianni Ratto, que descreveu seu método como um processo de estímulo e união da companhia, em que cada ator se sentia motivado a criar. A biografia Viver de Teatro, publicada por José Rubens Siqueira em 1995, reúne depoimentos que ajudam a reconstruir essa forma de trabalhar.
Por que Flávio Rangel ainda importa
Para quem estuda teatro, história ou jornalismo, a obra de Flávio Rangel funciona como uma porta de entrada para um período decisivo da cultura brasileira. Alguns trabalhos ajudam a organizar a trajetória:
- Gimba, Presidente dos Valentes (1959) — a montagem que projetou o diretor e levou o teatro brasileiro a festivais internacionais.
- O Pagador de Promessas (1960) — a consagração à frente do TBC, com Leonardo Villar no elenco.
- Liberdade, Liberdade (1965) — o espetáculo de resistência escrito com Millôr Fernandes e interrompido pela censura.
- Amadeus (1982) e Piaf (1983) — os musicais que marcaram sua fase de grandes produções.
- Cyrano de Bergerac (1985) — o último grande sucesso, com Antonio Fagundes e Bruna Lombardi.
Seu nome aparece em verbetes da Enciclopédia Itaú Cultural, em documentos do período militar preservados no Arquivo Nacional e nas páginas de teatro que registraram suas temporadas. A obra como cronista e as montagens que assinou continuam sendo redescobertas por leitores e pesquisadores interessados em entender como o teatro brasileiro se profissionalizou e, ao mesmo tempo, se tornou espaço de debate público.






