Contexto e proposta de Seria Cômico Se Não Fosse Trágico
Seria Cômico Se Não Fosse Trágico reúne crônicas que Flávio Rangel publicou na imprensa durante os anos 1970. Lançado em 1979 pela Civilização Brasileira, o livro retrata o Brasil do milagre econômico com ironia e olhar de cronista.
Os textos comentam inflação, censura, crise política e costumes, sempre ancorados em situações concretas do noticiário. Rangel escrevia como dirigia: dava ritmo à cena, escolhia o ângulo mais revelador e deixava os personagens reais falarem. O resultado é um retrato do país que mistura humor, denúncia e observação de detalhes.
O livro pertence à linhagem das coletâneas de jornalistas-escritores brasileiros que circularam nas décadas de 1960 e 1970. Quem pesquisa a ditadura encontra nas páginas uma leitura de época, feita por quem conhecia os bastidores da cultura e da política. Quem gosta de crônica encontra textos curtos, diretos e bem construídos.
A edição original circula hoje em livrarias usadas e bibliotecas, e o título continua sendo citado em estudos sobre imprensa e humor no Brasil. É uma porta de entrada para a produção escrita de Rangel, que ainda publicaria A Praça dos Sem Poderes, Os Prezados Leitores e Diário do Brasil.
Para quem conhece apenas o diretor de teatro, o volume mostra outra face: a de um autor que usava a página de jornal como palco diário. A leitura funciona bem ao lado de seus espetáculos mais políticos, porque ambos partem do mesmo impulso de observar o país e devolver a crítica em forma de cena ou de crônica.
As crônicas do livro foram escritas no calor do noticiário, mas envelheceram bem justamente porque não dependem só do assunto do dia. O humor de Rangel nasce da forma: frases curtas, diálogos imaginários, mudanças rápidas de cena. É a mesma habilidade que ele usava para dirigir elencos grandes em pouco espaço de palco, aplicada agora à página impressa.
O título do volume resume o método: o cômico e o trágico aparecem lado a lado, sem que o autor precise escolher entre eles. Essa mistura de tons fez o livro circular bem entre leitores de jornal e leitores de literatura, e ajudou a manter vivo o nome de Rangel fora dos palcos.





