Contexto e proposta de O Estado de Narciso
O Estado de Narciso abre com perguntas que qualquer leitor de jornal já se fez: como reportar as vaias recebidas por uma presidente da República em evento público? Como anunciar dias de escassez de água sem comprometer o governo? Até que ponto a comunicação pública pode ser considerada realmente pública no Brasil?
Eugênio Bucci escreveu o livro com conhecimento de causa. Entre 2003 e 2007, presidiu a Radiobrás, a estatal de comunicação do governo federal, e viu de perto como a máquina oficial funciona. O subtítulo — "a comunicação pública a serviço da vaidade particular" — resume a tese: quando o marketing político ocupa o lugar do interesse coletivo, governar e anunciar viram sinônimos.
A investigação desmonta o que o autor chama de supermáquina da comunicação oficial, feita de orçamentos bilionários, estruturas paralelas e manobras para aproveitar brechas na legislação. O livro mostra que as origens desses desvios são antigas, mas ganharam escala com as técnicas modernas de propaganda e com a polarização entre governos e imprensa.
O argumento central interessa para além da política partidária: a sociedade tem direito a informação sem manipulação, e o Estado deveria informar segundo critérios públicos, não de autopromoção. Quando peças de divulgação governamental, propaganda eleitoral e publicidade comum ficam indistinguíveis, quem perde é a democracia — que depende de contornos claros para funcionar.
Publicado em 2015 pela Companhia das Letras, o ensaio interessa diretamente a jornalistas, gestores públicos e estudantes de comunicação, e conversa com a experiência que Bucci depois relataria no livro sobre a Radiobrás. É também uma chave para entender os debates atuais sobre transparência, publicidade oficial e controle social do gasto público.





