Eugênio Bucci presidiu a Radiobrás entre 2003 e 2007, no primeiro governo Lula, e transformou a passagem pela empresa estatal no livro Em Brasília, 19 horas. A experiência fecha um ciclo que começou nas redações da Editora Abril — onde dirigiu as revistas Superinteressante e Quatro Rodas — e desembocou na universidade, como professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). É da costura entre jornalismo, gestão pública e pesquisa acadêmica que saem seus livros sobre ética, comunicação pública e desinformação.
Nascido em Orlândia, no interior de São Paulo, em 24 de novembro de 1958, Bucci formou-se em Comunicação Social pela ECA-USP em 1982 e em Direito pela USP em 1988. Voltaria à mesma escola como docente: aprovado em concurso em 2008, tornou-se professor titular do Departamento de Informação e Cultura em 2017. Também é superintendente de Comunicação Social da USP.
Das redações à cátedra
Antes da universidade, Bucci passou por alguns dos principais veículos do país. Foi crítico de cultura e televisão em jornais como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, e em revistas como Veja, Nova Escola e Sem Fronteiras. Na Editora Abril, além de dirigir Superinteressante e Quatro Rodas, foi Secretário Editorial. Trabalhou ainda na Editora Brasiliense, ao lado de Caio Graco Prado.
Nos anos 1980, ajudou a criar a revista Teoria e Debate, da Fundação Perseu Abramo, e foi seu primeiro editor. Doutorou-se em Ciências da Comunicação pela ECA-USP em 2002 e concluiu a livre-docência em 2014. Entre 2010 e 2014, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), onde dirigiu o curso de pós-graduação em Jornalismo com ênfase em Direção Editorial, de 2011 a 2013 — período em que o curso contou com nomes como Alberto Dines entre os professores.
A Radiobrás e a comunicação pública
Em 2003, Bucci foi escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para presidir a Radiobrás, a estatal de comunicação do governo federal. Comandou a empresa até 2007, num período de reformulação que lhe rendeu a Ordem de Rio Branco em 2005. A saída do cargo foi narrada em Em Brasília, 19 horas: a guerra entre a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula (2008).
O tema da comunicação pública atravessa boa parte da obra seguinte. Em O Estado de Narciso (2015), Bucci investiga a "supermáquina da comunicação oficial" brasileira e a tese de que governar e anunciar viraram sinônimos quando o marketing político passa a ditar as regras. O livro mostra como orçamentos bilionários e brechas na legislação sustentam uma estrutura de autopromoção que rivaliza com o direito da sociedade à informação.
Superindústria do imaginário, incerteza e desinformação
Na última década, a pesquisa de Bucci se deslocou para o que ele chama de superindústria do imaginário: o arranjo em que o capitalismo passou a extrair valor da imagem, do olhar e dos dados pessoais, com as grandes plataformas digitais no centro do processo. A superindústria do imaginário (2021) foi finalista do Prêmio Jabuti de 2022.
A desinformação entrou no radar em Existe democracia sem verdade factual? (2019), em que ele dialoga com o pensamento de Hannah Arendt para discutir como as notícias fraudulentas corroem os alicerces da cultura democrática. Em Incerteza, um ensaio (2023), Bucci persegue a história da incerteza como ideia — da matemática à economia, da política ao mundo digital — e venceu o Prêmio Jabuti Acadêmico de 2024 na categoria Comunicação e Informação.
Bucci coordenou academicamente a Cátedra Oscar Sala, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, entre 2020 e 2023, e integrou o grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade. Sete de seus livros foram finalistas do Prêmio Jabuti ao longo da carreira.
Colunista, conselhos e Academia Paulista de Letras
Desde que deixou a Radiobrás, Bucci mantém presença constante na imprensa. Colaborou com o Observatório da Imprensa entre 2008 e 2011, foi colunista da revista Época de 2011 a 2018 e assina coluna quinzenal no jornal O Estado de S. Paulo. Também integra conselhos como os da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), do Instituto Vladimir Herzog, do Instituto Palavra Aberta e da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial).
Entre os prêmios que recebeu estão o Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação, na categoria Liderança Emergente (2011), e o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa (2013), concedido à Revista de Jornalismo ESPM, da qual foi orientador editorial. Em 2024, foi eleito para a cadeira de número 12 da Academia Paulista de Letras, sucedendo Paulo Nathanael Pereira de Souza.
Livros que ajudam a entender Bucci
- Sobre ética e imprensa (2001) — a discussão sobre credibilidade e conduta profissional levada para fora dos círculos especializados.
- Em Brasília, 19 horas (2008) — o relato de dentro da Radiobrás sobre a disputa entre comunicação oficial e direito à informação.
- O Estado de Narciso (2015) — a crítica da comunicação pública transformada em vitrine do poder.
- Existe democracia sem verdade factual? (2019) — fake news e cultura democrática à luz de Hannah Arendt.
- A superindústria do imaginário (2021) — a economia política da imagem e dos dados na era das plataformas.
- Incerteza, um ensaio (2023) — a trajetória da incerteza como ideia, do cálculo de risco ao algoritmo.
Bucci também assinou Videologias (2004), escrito com Maria Rita Kehl, e Roberto Marinho (2021), biografia do fundador das Organizações Globo para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras.






