Contexto e proposta de Pesadelo Ambicioso
Pesadelo Ambicioso reúne colagens conceituais e de imagens em que Fausto Fawcett leva ao limite o vocabulário que vem construindo desde os anos 1980. Publicado pela Numa Editora, o livro é feito de fragmentos que se chocam para produzir o que o autor chama de beleza atormentada e vertiginosa da atualidade.
O ponto de partida é um termo criado pelo próprio Fawcett para definir sua literatura: fricção científica, a ideia de que estamos esfregando, engolindo e friccionando tecnologia em nossos corpos de forma viciante e prazerosa. Sangue de plástico, sangue de fármaco, mente de fármaco, sentimento de fármaco, desejo de fármaco: é esse vocabulário que organiza as páginas e descreve um mundo em que a fronteira entre humano e máquina já não é nítida.
O pano de fundo é a urbanóia, as cidades e o mundo transformados numa imensa mancha urbana, com vazios que funcionam como intervalos perigosos de uma gincana sádica. Para cada minuto de civilização, cinco de barbárie, resume o autor. As colagens misturam letras expandidas, falações redirecionadas para o papel e imagens que atravessam a vida contemporânea.
Fawcett descreve o livro como crônica da quarta guerra em curso: aquilo que antes era privilégio de soldados ou terroristas está espalhado pelas manchas urbanas, em transtornos de personalidade apocalíptica amplificados pelas redes sociais. É a mesma linha de investigação que atravessa Favelost e os contos de Básico Instinto, agora em formato de fragmento e ensaio.
O volume concentra as obsessões que atravessam toda a obra do autor: cidade, tecnologia, fé, consumo e violência. Quem lê Pesadelo Ambicioso reconhece ali o mesmo olhar que criou os andróides e mutações das primeiras canções, agora voltado para o presente das redes e dos mercados.
Por que ler Pesadelo Ambicioso
Para quem acompanha a obra de Fawcett desde Kátia Flávia, o livro mostra como o tema da tecnociência amadureceu em uma reflexão sobre vigilância, consumo, fé e violência cotidiana. Para quem chega agora, é uma porta de entrada no pensamento do autor sobre a vida nas grandes cidades, com a vantagem de poder ser lido em blocos curtos, como uma coleção de achados.
Com 368 páginas, é um dos volumes mais densos da bibliografia de Fawcett e interessa a leitores de ensaio, ficção experimental e crítica cultural, além de pesquisadores que estudam as relações entre literatura brasileira e tecnologia.





