Fausto Fawcett colocou Kátia Flávia, a Godiva do Irajá na boca do Brasil e fez de Copacabana um território de ficção científica. Cantor, compositor, escritor, roteirista e performer, ele atravessou quatro décadas de produção cultural sem trocar de obsessão: a cidade, seus personagens à margem e a tecnociência que se mistura ao cotidiano.
Nascido Fausto Borel Cardoso no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1957, cresceu em Copacabana, endereço que se tornaria matéria-prima de quase tudo o que escreveu e cantou. Essa fusão entre música, literatura e performance explica por que seu nome continua sendo buscado por públicos tão diferentes: quem estuda a cena carioca dos anos 1980, quem procura ficção científica brasileira e quem quer apenas reencontrar o refrão que atravessou gerações.
De Copacabana para o rádio: a formação de um performer
Fausto formou-se em Jornalismo pela PUC-RJ em 1983 e começou a circular pela noite carioca com performances que misturavam teatro, música e poesia, pequenas narrativas dramáticas apresentadas em bares e casas noturnas. O nome artístico homenageia a atriz americana Farrah Fawcett, e a escolha já dizia muito sobre o artista que viria: alguém que tratava a cultura pop como repertório sério.
A entrada no mercado fonográfico veio em 1986, por indicação do cineasta Cacá Diegues a um executivo de gravadora. No ano seguinte, Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros apresentou crônicas urbanas e futuristas declamadas sobre uma base rítmica simples e marcada, com linguagem cinematográfica que a crítica da época demorou a digerir e o público abraçou. A faixa Kátia Flávia, história de uma fugitiva da polícia que cruza a cidade a cavalo, virou sucesso nacional e entrou na trilha sonora da novela O Outro, da TV Globo.
Em entrevista no início da carreira, Fawcett resumiu o salto: em poucos dias, passou de coqueluche do underground a coqueluche do povão. O cantor Cazuza observou na mesma época que o que mais o impressionava no artista era ele ter conquistado ao mesmo tempo a Zona Sul e a Zona Norte do Rio de Janeiro.
Kátia Flávia, Rio 40 Graus e as canções gravadas por outros artistas
A música de Fawcett ganhou vida em várias vozes. A parceria com Fernanda Abreu começou em 1990, no disco SLA Radical Dance Disco Club, e rendeu letras como Rio 40 Graus e Luxo Pesado. Em 2000, o Skank gravou Balada do Amor Inabalável, escrita por Fawcett e Samuel Rosa para o disco Maquinarama. Rogério Skylab e Dado Villa-Lobos também assinam faixas com o letrista.
O cinema usou suas canções em trilhas como as de Lua de Fel, de Roman Polanski, O Superoutro, de Edgard Navarro, e Tropa de Elite, de José Padilha. Em 1989, o álbum Império dos Sentidos chegou produzido por Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, com uma fotografia da modelo Sílvia Pfeifer na capa, aprofundando a ópera porno-futurista iniciada no disco de estreia.
Fausto Fawcett escritor: distopia, cyberpunk e fricção científica
O primeiro romance, Santa Clara Poltergeist, saiu em 1990 e apresentou Verinha Blumenau, a garota de programa que sofre mutações, ganha poderes de cura e se transforma em uma santa cultuada por televisões fora do ar. A história foi pensada como videoclipe, virou show erótico-multimídia e desembocou no álbum Básico Instinto, de 1993, gravado com a banda Falange Moulin Rouge.
Em 1992 veio o livro de contos Básico Instinto, seguido por Copacabana Lua Cheia, de 2000, um diário quase autobiográfico em homenagem ao bairro. Favelost, de 2012, imaginou São Paulo e Rio como uma única mancha urbana em que tudo é descartável; Pororoca Rave, de 2015, levou um casal de DJs à floresta amazônica em busca do som do Big Bang. Pesadelo Ambicioso, publicado pela Numa Editora, reúne colagens sobre o que o autor chama de fricção científica.
Fawcett costuma dizer que não escreve ficção científica: exagera na realidade. É esse método que conecta a radioatividade de Santa Clara Poltergeist, os gnósticos de Básico Instinto e os algoritmos de Favelost. Sua escrita nasce do ritmo da fala, como ele mesmo descreve ao falar da interseção entre o lado escritor e o lado músico. Em 2014, a editora Encrenca relançou Santa Clara Poltergeist e Básico Instinto e publicou a adaptação em quadrinhos de Kátia Flávia, ilustrada por Iuri Casaes.
Teatro, televisão e cinema: a veia performática
Além dos discos e livros, Fawcett assina quatro peças de teatro, encenadas em diferentes fases da carreira:
- Amizade de Rua
- Ataliba, a Gata Safira
- O Conto da Casa de Usher
- Olhos Ardentes
No Canal Brasil, foi roteirista e ator dos seriados Vampiro Carioca e Sombrio 40 Graus, que misturam o submundo carioca ao fantástico. Dessa parceria nasceu o longa Vampiro 40°, de 2016, em que interpreta Vlak, um vampiro que também atua no tráfico de drogas. Antes disso, havia aparecido no cinema em Um Trem para as Estrelas, de 1987, como ele mesmo.
Fausto Fawcett na Cabeça e Favelost: O disco
Em 2022, o documentário Fausto Fawcett na Cabeça, dirigido por Victor Lopes, começou a rodar festivais como o Festival do Rio e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No Fest Aruanda, venceu como melhor filme pelo júri oficial da mostra competitiva nacional de longas-metragens e levou os prêmios de melhor ator ou personagem e o Troféu Abracine. Produzido pela TvZero com coprodução do Canal Brasil, o filme chegou aos cinemas brasileiros em 25 de julho de 2024.
No mesmo período, Fawcett lançou Favelost: O disco, primeiro álbum de inéditas desde Básico Instinto, com nove faixas em forma de ópera-rock cibernética. O trabalho tem participações de André Abujamra, Marcos Suzano, Irmãs Paixão e Rodrigo Sha e retoma a premissa do romance homônimo para narrar uma história de amor em um território distópico. O disco foi apresentado em shows, como no Marte Festival, em Ouro Preto, em julho de 2024.
Perguntas frequentes sobre Fausto Fawcett
Quem é Fausto Fawcett?
É um cantor, compositor, escritor e performer carioca, conhecido pela canção Kátia Flávia, a Godiva do Irajá, e por romances como Santa Clara Poltergeist e Favelost. Atua também como roteirista, dramaturgo e ator.
Qual é o nome verdadeiro de Fausto Fawcett?
Fausto Borel Cardoso, nascido no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1957. O nome artístico é uma homenagem à atriz Farrah Fawcett.
Qual é a relação de Fausto Fawcett com Fernanda Abreu?
Ele assina letras gravadas por Fernanda Abreu desde 1990, entre elas Rio 40 Graus e Kátia Flávia, a Godiva do Irajá. A parceria atravessa discos como SLA Radical Dance Disco Club, SLA 2 Be Sample e Entidade Urbana.
Quais livros Fausto Fawcett escreveu?
Santa Clara Poltergeist (1990), Básico Instinto (1992), Copacabana Lua Cheia (2000), Favelost (2012), Pororoca Rave (2015) e Pesadelo Ambicioso. As duas primeiras obras foram relançadas pela editora Encrenca em 2014.
Onde ouvir a música de Fausto Fawcett?
Os álbuns Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987), Império dos Sentidos (1989), Básico Instinto (1993) e Favelost: O disco (2024) estão disponíveis nas plataformas de streaming, junto das canções gravadas por Fernanda Abreu e Skank.
Entre o rap declamado dos anos 1980 e as colagens de Pesadelo Ambicioso, a obra de Fausto Fawcett mantém um fio condutor: a leitura da cidade como organismo em mutação e da tecnologia como parte da paisagem humana. É essa coerência que faz dele uma referência para quem pesquisa cultura urbana, literatura fantástica e música brasileira.






