Contexto e proposta de Santa Clara Poltergeist
Publicado em 1990, Santa Clara Poltergeist é o romance que levou a imaginação de Fausto Fawcett das letras de música para a prosa longa e transformou Copacabana em um laboratório de mutações, milagres e excessos.
A protagonista é Verinha Blumenau, uma garota de programa do interior de Santa Catarina que, ao cair numa poça de lama, tem o corpo penetrado por substâncias que provocam mutações radicais: fica blindada contra doenças e passa a carregar poderes de cura infinitos. Ela desembarca em Copacabana, onde uma falha magnética, obra de fundamentalistas da radioatividade, elimina as fronteiras entre a nossa dimensão e outras possíveis. O bairro, já convulsivo por natureza, vira palco de uma explosão de sentidos, tecnologia de gambiarra e promiscuidade espírita.
É nesse cenário que a personagem assume o nome Santa Clara Poltergeist, referência à rua onde realiza sessões de cura, convocando pessoas por meio de televisões fora do ar. A trama mistura cultura de massa, misticismo e ficção científica sem pedir licença à separação entre erudito e popular, marca registrada de toda a obra do autor.
O livro nasceu depois do sucesso de Kátia Flávia, no momento em que Fawcett já circulava entre shows, performances e a noite carioca. A história foi pensada originalmente para um videoclipe e acabou virando um espetáculo erótico-multimídia, que por sua vez desembocou no álbum Básico Instinto, de 1993, gravado com a banda Falange Moulin Rouge. O romance não é um projeto paralelo na carreira do autor: é uma engrenagem central da fase em que ele passou a criar personagens para além das canções.
O próprio Fawcett costuma dizer que não escreve ficção científica, exagera na realidade. A frase resume o método do livro: partir de fenômenos reconhecíveis, como radioatividade, televangelismo, violência urbana e desejo, e torcer cada um deles até o ponto em que a cidade real se torna irreconhecível. Não há distopia no futuro distante, há o Rio de Janeiro do presente esticado ao limite.
Fora de catálogo por anos, Santa Clara Poltergeist foi relançado em 2014 pela editora Encrenca, dentro de um movimento de redescoberta da literatura de invenção brasileira que também trouxe de volta Básico Instinto. A nova edição aproximou o romance de uma geração de leitores que cresceu ouvindo falar do cyberpunk brasileiro sem ter acesso aos títulos originais.
Por que ler Santa Clara Poltergeist
Para quem acompanha a ficção científica nacional, o romance é uma peça-chave: antecipa discussões sobre mutação genética, religiosidade midiática e colapso urbano em uma linguagem que mistura narração acelerada, humor e imagens cinematográficas. Para quem chega pela música, é a chance de entender de onde vêm os personagens que atravessam os discos e os shows de Fawcett.
A leitura funciona melhor para quem aceita a proposta de uma Copacabana fantástica, em que santa, prostituta, cientista e marginal dividem a mesma calçada. É literatura de excesso, feita de adjetivos fortes e ritmo de fala, a mesma batida que o autor descreve como rap d'groove.





