Em 1971, Zé Rodrix e Tavito venceram o Festival da Canção de Juiz de Fora com Casa no Campo. A gravação de Elis Regina espalhou o verso sobre compor rocks rurais, e o nome artístico de José Rodrigues Trindade passou a indicar um jeito próprio de juntar estrada, viola e amplificador.
Quem busca Zé Rodrix hoje chega, em geral, por essa canção, pelo trio Sá, Rodrix e Guarabyra ou pelos romances que ele publicou depois na Record. Compositor, multi-instrumentista, publicitário e escritor, nasceu no Rio de Janeiro em 25 de novembro de 1947. Morreu em São Paulo na madrugada de 22 de maio de 2009, aos 61 anos, de infarto, depois de ser levado ao Hospital das Clínicas. Morava na cidade.
Quem foi Zé Rodrix
O nome de palco recorta o sobrenome do meio. Antes de assinar Rodrix, ele ainda aparecia como Zé Rodrigues. No ensino médio, no Colégio de Aplicação da UFRJ, formou com David Tygel, Maurício Mendonça (mais tarde Maurício Maestro) e Ricardo Sá (mais tarde Ricardo Villas) o grupo vocal Momento Quatro.
Em 1967 o quarteto acompanhou Marília Medalha e Edu Lobo em Ponteio, vencedora do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, com o Quarteto Novo no palco. No mesmo ano saiu o compacto de Glória, primeira composição dele gravada. O LP Momento Quatro, pela Philips, veio em 1968, com faixas como Passa Ontem, em parceria com Luiz Fernando Werneck, e De Luzia, Ana e Maria.
O que ele estudou
As primeiras noções musicais vieram do pai. Em seguida Zé Rodrix cursou o Conservatório Musical do Rio de Janeiro e a Escola Nacional de Música, com teoria, harmonia e contraponto. O verbete do Dicionário Cravo Albin lista piano, acordeão, flauta, saxofone e trompete nessa formação. No palco a prática também incluía violão, guitarra, sanfona e bateria.
Essa escola explica a circulação entre conjuntos que não se parecem. Ele não ficava só na voz da frente: arranjava, sentava ao teclado e entrava no disco dos outros quando a faixa pedia um timbre a mais.
Como nasceu o rock rural
No começo dos anos 1970 ele entrou no Som Imaginário, banda criada para acompanhar Milton Nascimento e que depois gravou com outros nomes da MPB. Rodrix participou até o primeiro disco do grupo, lançado pela Odeon em 1970, e saiu em 1971. Nesse mesmo ano, Casa no Campo venceu Juiz de Fora. A letra fala em compor muitos rocks rurais. O rótulo ficou: regionalismo, tropicalismo, folk, country e rock na mesma canção, cantada em seguida por Elis Regina.
O trio que levou o estilo aos palcos reuniu Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guttemberg Guarabyra. A Enciclopédia Itaú Cultural nota que o nome dialogava com Crosby, Stills, Nash & Young, enquanto o chão das letras era brasileiro. Hoje Ainda É Dia de Rock, só de Rodrix, põe caixa Leslie e amplificador ao lado de milho verde. Não é metáfora solta: é o programa do grupo.
Os LPs Passado, Presente & Futuro (1972) e Terra (1973), ambos pela Odeon, reúnem parcerias como Mestre Jonas, O Pó da Estrada, Blue Riviera e Pendurado no Vapor. Também ficou o jingle do trio para a Pepsi, com o verso “só tem amor quem tem amor pra dar”. Depois de Terra, em 1973, Rodrix deixou o grupo. Sá e Guarabyra seguiram em dupla até 2001.
No início dessa década ele ainda assinou, como compositor, a trilha de Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos, e música para os espetáculos Tem Piranha na Lagoa, de Paulo Affonso Grisolli, e Independência ou Morte, de Hélio Bloch.
O disco solo que ganhou Disco de Ouro
Ainda em 1973 saiu I Acto, primeiro LP solo, com parcerias de Tavito como Coisas Pequenas e Receita de Bolo. Em 1974 veio Quem Sabe Sabe Quem Não Sabe Não Precisa Saber. O grande êxito comercial da fase solo foi Soy Latino Americano, de 1976, depois de Roberto Livi sugerir que ele cantasse mais para o grande público. A faixa-título é parceria dos dois. O disco recebeu Disco de Ouro da ABPD.
Na mesma década, o Cravo Albin aponta a participação dele como compositor nas trilhas das novelas da Globo O Espigão e Corrida do Ouro, além da trilha do filme O Esquadrão da Morte, de Carlos Imperial, lançada em LP pela RCA Victor em 1976. Em 1975 ele foi ator e diretor musical da peça Rock Horror Show. Em 1979, Hora Extra e Sempre Livre trazem várias letras com Paulo Coelho, entre elas Carga Pesada, depois regravada por Sérgio Reis.
Publicidade, palco e prêmio de cinema
A ida para São Paulo coincidiu com outro ofício. Com Tico Terpins, ele fundou o estúdio Voz do Brasil, voltado a trilhas, jingles e assinaturas de anunciantes. Em 1981, no compacto Seu Abelardo, parceria com Miguel Paiva, a marchinha indicava Chacrinha como candidato à Presidência. O lado B era Rock do Planalto.
Em 1983 entrou no Joelho de Porco. Com o grupo gravou Saqueando a Cidade (1983) e 18 Anos sem Sucesso (1988). No Festival dos Festivais, em 1985, levou o prêmio de melhor letra por A Última Voz do Brasil. Em 1986 assinou, com Miguel Paiva, a versão Alguém que Olhe por Mim, de Someone to Watch Over Me, dos Gershwin, gravada por Emílio Santiago na trilha de Cambalacho, novela da Globo editada em disco pela Som Livre.
Entre 1989 e 1996 foi diretor musical de Não Fuja da Raia e Nas Raias da Loucura, espetáculos de Sílvio de Abreu estrelados por Cláudia Raia, e do programa de mesmo nome na Globo. Em 1993 recebeu o Kikito do Festival de Cinema de Brasília pela trilha de Batman e Robin. A APETESP deu-lhe melhor trilha por A Bela e a Fera (1994) e por Os Reis do Improviso, de Jandira Martini e Marcos Caruso (1998). O musical Heleno de Freitas — Um Homem Chamado Gilda, escrito com Miguel Paiva em 1980, foi montado no Rio em 1996 pela Orquestra Brasileira de Sapateado.
Na fase paulista também estão a canção São Paulo 450, gravada por Daniela Mercury para o aniversário da cidade em 2004, a parte musical da TV Ratimbum, canal infantil da Fundação Padre Anchieta, e a identidade sonora da Rádio Cultura FM. Pelo bureau CriAnon, o nome aparece ligado a clientes como Davene, Votorantim, Café Journal e La Façon. Em 2006 ele concebeu, escreveu, produziu, dirigiu e musicou o espetáculo de lançamento do Prisma, da General Motors, no Auditório Ibirapuera.
A volta com Sá e Guarabyra
Em 2001 a formação original subiu ao Rock in Rio III e lançou pela Som Livre o ao vivo Outra Vez na Estrada, com show de lançamento no Canecão. O repertório juntava Casa no Campo, Mestre Jonas e faixas novas, como Jesus numa Moto. Em 2003 ele passou a curador do Clube Caiubi de Compositores, em São Paulo. Em 2006 o trio voltou aos palcos, ele fez o show solo As Canções e dividiu com Tavito A Casa no Começo da Rua.
Em dezembro de 2008, Sá, Rodrix e Guarabyra lançaram o single Amanhece um Outro Dia, tema de abertura da novela Revelação, do SBT, também apresentado no programa da Hebe. O CD Amanhã foi gravado em 2008, com arranjos e produção de Tavito, e só chegou às lojas em 2010, pela Roupa Nova Music. Zé Rodrix não acompanhou esse lançamento.
Os romances da Trilogia do Templo
Fora do disco, o conjunto que ficou em catálogo de livraria é a Trilogia do Templo, na Record. Johaben: Diário de um Construtor do Templo saiu em 1999 e recebeu o Prêmio Lima Barreto da União Brasileira de Escritores. Zorobabel: Reconstruindo o Templo veio em 2005. Esquin de Floyrac: O fim do Templo fechou a série em 2007. Em 2009 saiu o box com os três volumes. Os romances acompanham a construção, a reconstrução e a queda simbólica do Templo de Jerusalém, com a maçonaria no centro da trama. No início dos anos 2000 ele tornou pública a própria condição de maçom. A apresentação da Record ainda o descreve como leitor de uma biblioteca de cerca de 12 mil volumes.
Em 2013 a Madras publicou O Cozinheiro do Rei, romance póstumo passado no Brasil colonial, entre 1773 e 1823. A filha Marya Bravo estreou em 2011, no Espaço Sesc do Rio, o show De Pai para Filha, só com canções dele, entre elas Casa no Campo e Soy Latino Americano. O jornalista Toninho Vaz escreveu a biografia O Fabuloso Zé Rodrix, e Léo Côrtes dirigiu o documentário de mesmo nome.
- Momento Quatro, de 1966 ao LP de 1968 pela Philips
- Som Imaginário, até o disco de 1970 pela Odeon
- Sá, Rodrix e Guarabyra, nos LPs de 1972 e 1973 e no retorno de 2001
- Joelho de Porco, com discos em 1983 e 1988
- Trilogia do Templo, Record, entre 1999 e 2007
Na música brasileira dos festivais, Zé Rodrix é o autor da canção que deu nome a um estilo e, ao mesmo tempo, um profissional de trilha, jingle e romance histórico. O percurso vai do teclado do Som Imaginário aos livros que a Record publicou enquanto ele ainda estava em atividade.




